quarta-feira, 30 de agosto de 2017

ILUMINURAS.

III

Nos bosques tem um pássaro, você pára e cora com seu coro.
Tem um relógio que não toca nunca.
Tem uma brecha no gelo com um ninho de bichos brancos.
Tem uma catedral que sobe e um lago que desce.
Tem uma pequena carruagem abandonada na moita, ou que passa correndo, decorada.
Tem uma trupe em trajes de comédia, espiada pela trilha da floresta.
E então, quando você tem fome e sede, tem sempre alguém que te manda passear.

IV

Eu sou o santo, rezando no terraço, — como os animais pacíficos pastando junto ao mar da Palestina.
Eu sou o sábio na poltrona sombria. Os galhos e a chuva se jogam contra a vidraça da biblioteca.
Eu sou o andarilho da grande estrada entre os bosque anões; o rumor das represas cobre meus passos. Me demoro vendo a triste fuligem dourada do pôr-do-sol.
Eu bem podia ser a criança abandonada no cais de partida pro alto mar, o caipira rodando as alamedas, sua cabeça roçando o céu.
Os caminhos são ásperos. Montesinhos se enchem de giestas. O ar está parado. Que longe os pássaros e as fontes! Isso só pode ser o fim do mundo, avançando.


CIDADE

Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole que julgam moderna porque todo estilo conhecido foi excluído das mobílias e do exterior das casas bem como do plano da cidade. Aqui você não nota rastros de nenhum monumento de superstição. A moral e a língua estão reduzidas às expressões mais simples, enfim! Estes milhões de pessoas que nem têm necessidade de se conhecer levam a educação, o trabalho e a velhice de um modo tão igual que sua expectativa de vida é muitas vezes mais curta do que uma estatística maluca encontrou para os povos do continente. Assim como, de minha janela, vejo novos espectros rolando pela espessa e eterna fumaça de carvão, — nossa sombra dos bosques, nossa noite de verão! — as novas Erínias, na porta da cabana que é minha pátria e meu coração, já que tudo aqui parece isto, — Morte sem lágrimas, nossa filha ativa e serva, um Amor desesperado, e um Crime bonito uivando na lama da rua.

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Iluminuras - Arthur Rimbaud 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

XENIA.

Meu tio se matou três dias antes do meu nascimento. Deu um tiro na cabeça com a arma velha e enferrujada que meu pai tinha comprado quando era moço. Minha mãe só ficava chorando, mas segurou firme. Me segurou firme por três dias. Então nasci.

Uma vez meu pai me perguntou por que eu tinha saído pra esse mundo, disse que era um lugar ruim de viver. Eu perguntei então porque ele tinha me colocado dentro da minha mãe.

Meus pais não se falavam muito. Meu pai quando bebia, me batia quando chegava em casa. Na escola, a maior parte dos garotos não gostavam de mim, muitos queriam me bater nos intervalos e no fim das aulas. Quase todos os dias eu tinha que enfrentar um cara que era maior que eu. Quase todos os dias eu tinha que provar que eu era mais forte do que os outros. Nem sempre eu vencia, mas batia neles também. Foi assim que começaram a me respeitar. Ou simplesmente começaram a esquecer de mim.

Comecei a roubar nos supermercados, colocava coisas pequenas dentro dos bolsos, dentro da bermuda, da camisa, e quando eles sacavam de me pegar eu corria feito um louco pelas ruas quase vazias ou às vezes lotadas.

Uma vez me pegaram, me levaram pra casa. Meus pais estavam lá. Não falaram comigo, não disseram nada. Era uma época ruim como qualquer outra, como todas as outras épocas de minha vida sempre foram. Meu pai estava sem trabalho, ficava em casa durante o dia, fumando, até que todo o dinheiro acabou e ele não tinha mais pro cigarro. Saiu e encontrou outro emprego. Era faxineiro em uma escola. Ele chegava em casa todo dia e dizia que odiava sua vida, que odiava seu trabalho, que preferia morrer, que queria morrer a continuar com aquilo, mas nunca fez nada como seu irmão fez, o que sempre me levou a pensar sobre a estranha necessidade que muitos de nós temos de continuar vivos, mesmo estando em situações nas quais nos sentimos completamente mortos por dentro.

O tempo foi passando e eu não sentia que estivesse mudando algo dentro de mim. Eu só passava meu tempo. Os garotos deixaram de me perturbar, mas eu não tinha amigos, ficava sozinho andando no pátio da escola enquanto os outros jogavam bola.

Um dia um garoto chegou falando que um tornado estava se movendo, que chegaria em nossa cidade naquela tarde. Ninguém nunca tinha visto algo assim, era só coisa de filme. Nós éramos crianças. Ficamos lá, depois da aula, esperando o tornado chegar.

24/10/2011 01:50

Andreas Duscha, Twister

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

POEMAS DE PAULO HENRIQUES BRITTO.

III

Nem tudo que tentei perdi. Restou
a intenção de ser alguém ou algo
que não se pode ser, mas só ter sido;
restou a tentação do nada, nunca
tão forte que vencesse esse meu medo
que é a coisa mais honesta que há em mim.
Sobrou também o hábito vadio
de me virar do avesso e esmiuçar
as emoções como quem espreme espinhas.
Mas nada disso dói; a dor é um ácido
que ao mesmo tempo que corrói consola,
que arde mas perfuma. Isso que eu sinto
é uma coceira que vem lá de dentro
e me destrói sem dignidade alguma.

VII

A consistência exata dessa insônia,
a forma certa desse medo, o gesto
seco que rejeita essa necessidade
abjeta de ser quem não se é —
a aceitação completa da vontade
insuportável de querer o que
se quer, a sede obscena de tragar
o copo junto com a bebida — coisas
tão simples, que só pedem a paciência
sábia dos que aprenderam a se aturar,
a santa complacência de quem lambe
as próprias chagas e aprecia o gosto —
não por requinte de nojo, mas só
por nunca haver provado outro sabor.


Duas bagatelas

I

O que conheço de mim
é quase só o que sei,
e o que sei é quase só
o que não quero saber.
Resta saber se isso tudo
é só o começo ou se é o fim
ou — o que é pior que tudo —
se é tudo.

II

Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso.

GERAÇÃO PAISSANDU

Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam —
vontade de destilar depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno de vida.

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Paulo Henriques Britto - Mínima Lírica
Companhia das Letras

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

OS MESMOS DIAS.

A noite me espia vazia
Falando que logo já será dia.
O sono que me vem agora lento como maré,
Não é a onda pesada que tentará me derrubar pela manhã.

Assim, sigo tentando destruir as horas do relógio
Sigo tentando destruir o medo no peito
Sigo tentando destruir este vazio de todos os dias,
Enquanto à noite me espia silenciosamente vazia
Me dizendo que logo, logo já será um novo dia.

29/07/2008 23:46