sábado, 22 de julho de 2017

OUTROS DESTINOS.

 

Eu tinha alguma esperança e aí tudo morreu como um demônio em chamas.
Camila Fraga.
Era fim de tarde. Ela tinha me pedido para encontrá-la na velha praça. Quando cheguei, já tava lá sentada fumando um. Os brinquedos velhos e enferrujados que brincamos anos antes. Agora já parecia que muito tempo tinha passado. Aproximei e sentei ao seu lado.
-Como é que tá?
-Quebrada. Como se tivessem retirado algo de mim. De dentro de mim. Como se eu tivesse nascido com asas e tivessem arrancado de mim usando só as mãos.
Fiquei em silêncio. Peguei meu cigarro e acendi.
-Acho que entendo como você se sente.
-Acho difícil. Mas você pode tentar.
-É...
-A tarde está agradável.
-O fim dela.
-Pode ser o nosso fim também.
-Não seja tão dramática.
Ela riu pela primeira vez naquele dia. Pela primeira vez naquele mês, disso tenho certeza. Me senti feliz por ainda conseguir fazer alguém rir.
-Você lembra do tempo em que eu queria ser atriz pra poder sair dessa cidade?
-Claro.
-Eu queria sair dessa cidade, loucamente, desesperadamente, queria sair daqui, encontrar outro lugar pra ser meu, algum lugar que pudesse chamar de meu. Mas hoje em dia... Não... Não mais.
-Essa cidade é nossa. Talvez seja a única coisa que nos caiba.
-Sinto tristeza com isso.
-Eu também.
-Mas hoje em dia não poderia mais sair daqui. Sinto como se essa cidade fosse minha verdadeira mãe. Ela me mal criou, me aborta todos os dias.
-Tu quer uma cerveja?
-Quero.
Levantei e atravessei as duas pistas. Entrei num bar. Trouxe as latas. Continuamos sentados, fumando e bebendo.
-O que tu vai fazer agora?
-Não sei. Continuar vivendo.
-Vocês já tavam juntos há muito tempo.
-Muito. Foi um tempo que os relógios não poderiam contar. E agora sinto como se eu não tivesse mais nada.
-É a merda da vida. É como as coisas são. Você lembra daquela garota da banca de revistas por quem me apaixonei? Nem comprar revista eu comprava antes, mas passei a ir lá toda semana, e comprava algo dela. Naquela época eu trabalhava legal, tava com uma grana, tava me sentindo bem. Pensei que iria me querer. Ela não ficou comigo. Preferiu ficar um outro cara.
-O que você tá querendo dizer?
-Sei lá.
-Isso não tem a mínima comparação!
-É, eu sei... Foi mal.
Ficamos em silêncio. Fumando.
-Sabe o que eu mais gosto nessa cidade?
-Não.
-A forma como o pôr do sol chega. A forma como a luz deita sobre a cidade, sobre as ruas, os muros, sobre as pessoas. É uma luz dourada, é como se a cidade toda fosse banhada por ouro por alguns minutos de seu dia.
-Você tem razão, é algo bonito.
-E não posso deixar de lembrar todos os beijos dados nessa cidade, todos os abraços e apertos de mão. Simplesmente não consigo deixar de lembrar disso.
Puxei dois cigarros, acendi. Um pra mim e outro pra ela. Ficamos lá fumando e terminando a cerveja. A noite já cairia por completo. As pessoas começavam a caminhar nas calçadas saindo de seus trabalhos à procura de suas casas ou outros destinos.

2011

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