sábado, 29 de julho de 2017

LEIA ABAIXO UM DOS POEMAS.

Recebei as nossas homenagens



Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio



parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.
Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece.



Da vista e do visto



Mais uma vez é maio; não o levaste contigo;
horas se escrevem hoje com o lápis de sempre,
ultramar e um tanto adolescente; não o levaste,
maio, mês de meu aniversário, quando a melancolia
é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios;

vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste

maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo; algo,
porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei,
e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência
ou não, procuro e não encontro a minha antiga alegria.



Leia abaixo um dos poemas



Ana diz as palavras faltam quando
mais se precisa delas são apenas a sombrinha
do equilibrista, digo a Ana tantas vezes
sobrevivemos só por saber os nomes

não caímos não morremos, só quem nunca

esteve bambo no trapézio despreza o equilíbrio
zomba do vento, são as palavras que botam
a gente no alto, onde é melhor viver



de onde é melhor cair.



Romântica

Quantos de nós quereriam viver não a vida

mas o filme, quando a vida não é vida
e não se morre na morte e o que finda
não apodrece porque logo é outro set;

vida em que se passa a salvo de um dia

a outro sem que se viva a semana entre
eles; viver sob as ordens de um destino
por escrito que sabemos previamente



e o vivemos sem vivê-lo. A força dos fortes
que voam; bandos que matam sem matar;
fracos que não desistem; bravos que no fim
se vingam. Tantos de nós desejaríamos

ter vivido e ter amado amores desgraçados,

cuja beleza, tão bela, era mais bela que
a dor e a dor era mais a beleza que o doer.
Queríamos que fosse não a vida, mas

a cena e a canção crescendo no momento

certo da alegria, no instante do beijo,
no clímax. Close: quando errássemos,
bem na hora, a voz de um Deus dizendo



corta!
 ________
4 poemas de Eucanaã Ferraz, de seu livro "Sentimental".

sábado, 22 de julho de 2017

OUTROS DESTINOS.

 

Eu tinha alguma esperança e aí tudo morreu como um demônio em chamas.
Camila Fraga.
Era fim de tarde. Ela tinha me pedido para encontrá-la na velha praça. Quando cheguei, já tava lá sentada fumando um. Os brinquedos velhos e enferrujados que brincamos anos antes. Agora já parecia que muito tempo tinha passado. Aproximei e sentei ao seu lado.
-Como é que tá?
-Quebrada. Como se tivessem retirado algo de mim. De dentro de mim. Como se eu tivesse nascido com asas e tivessem arrancado de mim usando só as mãos.
Fiquei em silêncio. Peguei meu cigarro e acendi.
-Acho que entendo como você se sente.
-Acho difícil. Mas você pode tentar.
-É...
-A tarde está agradável.
-O fim dela.
-Pode ser o nosso fim também.
-Não seja tão dramática.
Ela riu pela primeira vez naquele dia. Pela primeira vez naquele mês, disso tenho certeza. Me senti feliz por ainda conseguir fazer alguém rir.
-Você lembra do tempo em que eu queria ser atriz pra poder sair dessa cidade?
-Claro.
-Eu queria sair dessa cidade, loucamente, desesperadamente, queria sair daqui, encontrar outro lugar pra ser meu, algum lugar que pudesse chamar de meu. Mas hoje em dia... Não... Não mais.
-Essa cidade é nossa. Talvez seja a única coisa que nos caiba.
-Sinto tristeza com isso.
-Eu também.
-Mas hoje em dia não poderia mais sair daqui. Sinto como se essa cidade fosse minha verdadeira mãe. Ela me mal criou, me aborta todos os dias.
-Tu quer uma cerveja?
-Quero.
Levantei e atravessei as duas pistas. Entrei num bar. Trouxe as latas. Continuamos sentados, fumando e bebendo.
-O que tu vai fazer agora?
-Não sei. Continuar vivendo.
-Vocês já tavam juntos há muito tempo.
-Muito. Foi um tempo que os relógios não poderiam contar. E agora sinto como se eu não tivesse mais nada.
-É a merda da vida. É como as coisas são. Você lembra daquela garota da banca de revistas por quem me apaixonei? Nem comprar revista eu comprava antes, mas passei a ir lá toda semana, e comprava algo dela. Naquela época eu trabalhava legal, tava com uma grana, tava me sentindo bem. Pensei que iria me querer. Ela não ficou comigo. Preferiu ficar um outro cara.
-O que você tá querendo dizer?
-Sei lá.
-Isso não tem a mínima comparação!
-É, eu sei... Foi mal.
Ficamos em silêncio. Fumando.
-Sabe o que eu mais gosto nessa cidade?
-Não.
-A forma como o pôr do sol chega. A forma como a luz deita sobre a cidade, sobre as ruas, os muros, sobre as pessoas. É uma luz dourada, é como se a cidade toda fosse banhada por ouro por alguns minutos de seu dia.
-Você tem razão, é algo bonito.
-E não posso deixar de lembrar todos os beijos dados nessa cidade, todos os abraços e apertos de mão. Simplesmente não consigo deixar de lembrar disso.
Puxei dois cigarros, acendi. Um pra mim e outro pra ela. Ficamos lá fumando e terminando a cerveja. A noite já cairia por completo. As pessoas começavam a caminhar nas calçadas saindo de seus trabalhos à procura de suas casas ou outros destinos.

2011

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CARTA SOBRE A FELICIDADE.

"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer por meio da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la. 

Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade. 

Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles. 

Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado. 

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida. 

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal. 

Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve. 

Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades. 

Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem. 

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.
 

Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo. 

Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir. 

É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.

Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem. 

Consideramos ainda a autossuficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil. 

Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita. 

Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte. 

Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas. 

Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor? 

Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses por meio das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável. 

Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau. 

Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais."
___________

Epicuro a Meneceu, em sua "Carta Sobre a Felicidade". Tradução e apresentação de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore.

sábado, 1 de julho de 2017

FRED.

Ninguém soube ao certo o que significou o que Fred tinha feito, se era um ato de loucura ou simplesmente um ato completamente imbecil. E muitos na cidade eram aqueles que diziam achar Fred um completo imbecil.
Seu nome real não era Fred. Ele mesmo tinha se dado este nome retirado de algum filme de ficção científica que viu muitos anos antes.
Ele tinha saído da cidade há cerca de três ou quatro anos antes do que veio a acontecer. Tinha meio que fugido da humilhação de ter encontrado sua mulher com outro, ter brigado com o cara, perdido, levado uma surra no meio da rua, e ainda escutado da mulher que ele sustentava, que ela estava dando para outro porque o outro era melhor que ele na cama. Ele passou uns três dias bebendo, caindo no chão das ruas, depois pegou algumas coisas e saiu da cidade. Quase ninguém o viu indo embora, somente uns velhos que ficavam sentados o dia inteiro vendo a rua passar.
Fred passou um tempo fora, ninguém achava que ele seria capaz de voltar, mas depois de uns três anos voltou.
Meio mudado, parecia que estava meio mudado, diziam os mais velhos. Caminhava pela rua, conhecia tudo e todos, mas seu jeito de andar e olhar eram como se visse tudo pela primeira vez.
Acho que todos sabiam ao que ele tinha vindo. Mas acho que ninguém queria ou podia fazer alguma coisa.
Fred comprou uma arma por onde andou, e de volta à cidade foi atrás de sua ex-mulher. Ela já não estava mais com o cara que deu uma surra nele. Na verdade nem chegaram a ficar juntos pra valer depois que ele foi embora. Quando Fred voltou, ela vivia com um jogador de sinuca, que é claro, passava mais tempo nos bares do que em casa. Fred foi atrás dela e do antigo amante. Sacou sua arma e deu um tiro em cada cabeça.
O que Fred poderia ter feito depois disso era fugir da cidade de novo, e dessa vez para não voltar. Mas o que ele realmente fez, foi comprar uma garrafa de uísque, se embebedar, e sair andando pelas ruas e atirando para o alto.
Os policias não vieram para conversa, teve troca de bala e acertaram pelo menos umas dez no corpo de Fred.
Acho que ele queria isso. Acho que depois de matar a mulher e o amante dela, não tinha mais o que fazer ou algum lugar para ir.
Eu era pequeno quando isso aconteceu. Tinha uns dez anos. E lembro do meu avô indo me levar para ver o corpo de Fred sangrando na calçada em uma noite fria. Seus olhos sem luz, sem vida, fitando o vazio. 
20/09/2011 01:27- 01:44