domingo, 26 de março de 2017

ALGUM AMOR.

Sua mulher está agora trepando com outro cara” ou “Seu cara está trepando agora com outra senhora!” – porém quando ele disse isso os resíduos eram da deixa.
Jorge Cardoso


- Ó máh, tu tem que me escutá, é o que tô dizenu, ela tá te traino com uns cara por aí.
Issac é meu amigo de infância, crescemos no mesmo bairro e estudamos quase que nas mesmas escolas.
- Eu num sei se tu tá sabeno, mas o fato é que a cidade inteira já tá sabeno e comentano.
Vivo com essa mulher há dois meses. Me mudei pra sua casa. A conheço pouco. Comparado com o tempo que conheço Issac, é dois por cento de uma relação. Estamos morando juntos porque perdi o emprego na mesma época em que começamos a sair.
[- Porque você quer continuar saindo comigo? Quero dizer, estou sem emprego, estou sem dinheiro. Quero dizer, não tenho nada pra te dar neste momento. Somente quem sabe só alguma companhia na hora em que você quiser e eu puder.
- Tá bom pra mim.]
Eu perguntei certa vez e ela falou. Então não discuti mais. Seria o que seria. A vida não é pra ser um grande mistério pra todos nós. E continuamos por mais um tempo, nos encontrando e fazendo sexo no carro dela nos estacionamentos por aí, e em ruas escuras. Passou mais um tempo e falei pra ela que não tinha mais casa.
[- Olha, não sei se vamos dar certo. Eu tô sem um puto. O dono da casa me procurou por antes de ontem e disse que eu tenho uma semana pra sair, que se eu não pago, existe outro que quer morar ali e tem dinheiro pra pagar. Tô sem grana, num tenho dinheiro e tenho que sair.
- Eu não vou te dar dinheiro pra você pagar sua casa, mas se quiser, pode ficar comigo por um tempo.]
Foi o que ela disse, então faz dois meses que estou morando aqui. Ela sai de manhã pro trabalho e eu fico em casa. Assisto um pouco de televisão, escuto música em seu aparelho de som, leio algum livro de espionagem que ela tem na coleção, bebo, fumo, saio para procurar emprego, mas ainda não apareceu nada. Ela chega no começo da noite, às vezes traz o jantar, às vezes eu mesmo preparo, e nos sentamos à mesa e comemos juntos e conversamos e rimos de coisas de nossas vidas e do cotidiano. Depois ficamos no sofá, sentados um perto do outro, abrasados, assistindo programas na televisão, rindo de quem quer ser feito de besta. Vamos pro quarto, fazemos amor, dormimos.
[- Eu ainda não encontrei emprego, mas estou tentando.
- Tudo bem, não tem problema. Você pode ficar aqui enquanto.]
Ela fala.


-Ó cara, eu sou seu irmão, tá ligado? E você tem que sabê que ela tá te traino. Ela te botou na casa dela, mas ela tá é por aí dando pra outros cara, te fazeno de corno. Todo mundo na cidade sabe, só tu que não.
Eu e Issac somos amigos de infância, somos como irmãos mesmo, ele sempre tenta me proteger, o que é algo realmente idiota.
-Eu sei Issac, eu sei que ela tá dando pra outros caras por aí, mas eu não tô pedindo nada pra ela, como ela não tá pedindo nada pra mim, nós só estamos juntos, dividindo algo. E não ligo porra nenhuma pro que o povo dessa cidade de merda pensa. Eu gosto tão pouco dessa cidade quanto ela deve gostar de mim.
12/01/2010



quinta-feira, 2 de março de 2017

UM BARCO QUE NAUFRAGA EM MAR TRANQUILO.

George Bellows


Perdi a sinceridade de teus olhos negros,
Eles agora vagam sem destino algum pela cidade.

Sou eu a pedra
Que nada é moldada por vento que venha
E me traga alguma novidade há meus dias ilhas,
Às minhas horas inóspitas,
A algum clamor por fogo.

Perdi meu caminho de volta para casa
Sou aquele barco naufragando em pleno mar tranquilo.

11/05/2001 00:07 - 00:17