quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

ESCURIDÃO.

Não sei há quantos dias estou aqui. Não sei onde estou. É escuro, abafado, úmido. Sinto as paredes molhadas, talvez de meu suor. Existe um ventilador em uma das paredes, sei que está lá embora não o consiga ver por completo. Sinto o vento quente que sopra. O ar não circula no quarto, então o vento que sopra é quente. Meu suor. Está por todo meu corpo. Meu corpo está sempre molhado de suor. Isso me incomoda. Já estou me acostumando. Acorrentado dessa forma não posso fazer muita coisa. Não sei o que deveria fazer. Não sei há quantos dias estou aqui. Não sei por quantos dias mais vou permanecer neste lugar. Não sei o que fiz, elas não dizem, eu nunca pergunto. Eu não saberia como perguntar. E mesmo assim sei de antemão que elas não me responderiam.
As duas. Se revezam pra me trazer o que comer e o que beber. Não consigo ver o rosto de nenhuma. Só o formato do corpo. Às vezes consigo ver algo, quando existe luz. Elas mantêm o controle sobre a iluminação do quarto. Não tenho muito o que reclamar, fora essa corrente que me prende ao pé da cama, o resto é até razoável. A corrente está presa em minha perna e já começou a me ferir. Tudo bem que a culpa é minha. Quando acordei aqui, me mexia muito, tentava tirar, pensava que conseguiria, ainda não sabia que não seria possível.
Os olhos se acostumaram com a escuridão. No primeiro momento entrei em pânico. Acordei e só existia escuridão. Com o tempo consegui distinguir o que havia no quarto. Fora a cama onde acordei, sei do ventilador que sinto o vento. Existe um chuveiro, privada, descarga. Duas vezes por dia uma janelinha na parte de baixo da porta se abre e a comida é mandada pra dentro do quarto. Quando não, elas vêm aqui e me entregam a bandeja com o alimento e algo pra beber. Deixam água pra eu passar o dia. Não muita, só o razoável pro dia.
No começo, junto com as primeiras aparições, até pensei em atacá-las, mas cheguei à conclusão de que seria inútil. Entram, colocam comida perto de mim. Às vezes entram e ficam me observando, só isso. Algumas luzes são acessas e eu consigo ver um pouco de seus corpos, mas nunca o rosto. As luzes me cegam os olhos, quando são ligadas não consigo ver direito.
A mais bonita é calma. Sei que seu cabelo é preto, consigo sentir pelo toque, pelo cheiro. Suas pernas são bonitas, seus pés também. Gosto de beijá-los. Sei que ela gosta que eu faça isso, dês do princípio soube quando ela com luz só nas pernas e nos pés os colocou perto de mim enquanto eu estava deitado no chão. Eu sabia que tinha que ficar de joelhos e beijá-los, lambê-los. E assim faço. Beijo, passo a língua. Ela fica parada, sei que de cima me olha. Com ela o sexo é quente, consigo sentir seu calor sendo exalado. Seu sexo é quente e molhado, seu líquido me cai na boca. Sinto e gosto do cheiro do seu sexo, é calmo, quente. As luzes diminuem cada vez que ela senta em mim. Sinto suas coxas, seu sexo molhado molhando o meu. Mas ela me tortura quando está em cima de mim, me faz segurar o gozo por muito tempo. Somente quando ela chega a algum tipo de prazer que não sei qual é, aí sim posso gozar também.
A outra é diferente. Seu corpo é disforme, frio, consigo sentir quando o toco. Ela nunca toca em mim, nunca tocou, sou sempre eu que tenho que me aproximar, sou sempre eu que tenho que tocá-la. Um corpo disforme, frio, molhado de suor. Ao contrário da outra, ela sempre vêm nua. Seu sexo tem os pelos raspados por uma navalha ruim. Seu sexo é volumoso de carne, seu clitóris é grande, seu sexo tem um cheiro ruim, consigo sentir mesmo à distância, e quando ela se excita, o cheiro aumenta. Mesmo assim sei que tenho que me aproximar e o tocar com a língua. Gosto metálico. Mesmo sentindo nojo sei que tenho que o tocar com minhas mãos e minha boca. Às vezes a penetro. Mas só quando vejo que ela quer que eu faça isso.
Passo meus dias nisso. Essas visitas, alimentos. Não sei quem são elas. Não sei como cheguei aqui. Acho que há mais de dois meses, mas sei que também poderia ser menos. Sinto que fui drogado pra ser trazido, quando acordei senti aquela sensação de quem dorme há dias.
Não sei quanto tempo mais ficarei aqui trancado, sendo observado, alimentado e servindo para satisfação das duas. Sei que não posso perguntar. Sei que se mesmo assim o fizesse não receberia resposta. Não sei por quanto tempo será assim.

09/02/2009 00:41