sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O POEMA.

Tua linguagem subterrânea te afasta do mundo.
Por acaso o poema é teu sol?
Ilumina teus sonhos, aquece teu espírito?
Ou é teu modo de viver sem a vida?
Teu encontro cotidiano com a morte?
Que fazes das palavras que te perseguem
em seu imantado mistério e em sua ordem?
Que fazes da unidade e do equilíbrio que elas te
        ofertam?
Se não percebes esse momento divino
uma flecha venenosa atravessará teu coração.
De nada te servirá a poesia.

José Alcides Pinto - Silêncio Branco

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

TODOS OS POEMAS SÃO LOUCOS.

marinheiro 

Eu sei que você e eu somos pessoas por quem os sinos não dobram e os cães não ladram; e que a realidade não é uma pista de dança, nem a vida uma piscina onde você se afoga e é resgatado com vida. Se eu preciso registrar o momento e você não está ao meu lado, o verão, o bronze, o neon desbotado dos motéis também perderá a cor e eu me perderei nas ruas como um cachorro abandonado. Em cada pedaço de chão ou apartamento vazio, as janelas que você escancara não mostram o mundo lá fora. A inundação da chuva, motoristas atolados, ciclistas sem direção: o amor sob as cobertas quando a + b são sentimentos descritos em livros por um narrador sem rosto ou fome. Deixo você ir e também me perco no asfalto — morrendo de sede como marinheiro sem âncora tatuada no braço.

espinha vertical
 
Imagine que você morra por dentro entre quatro ou doze semanas não consecutivas. Imagine do outro lado do telefone alguém que não te escuta. Já passou da meia-noite e você precisa dormir. Não há dinheiro no banco e os seus sapatos estão sujos. As esquinas são as mesmas. Por aí, as pessoas seguem e vão de encontro. Algumas, provavelmente muitas, estão amando. Elas fazem sexo, dormem abraçadas. Então aquela piscina imaginária invade os teus sonhos e a revelação das pichações nos muros são os recados que alguém nunca quis te dar. A noite é sombra e os vidros se partem. Por onde andará quem pensa em mim? O meu gato de estimação realmente me ama quando não está com fome? Se você se fizer de rogado, do chão não passarei. Eu era insensato, hoje quero colar um pedaço de mim. Eu me vi em cada calçada enquanto você cuidava do corpo, lindo, sem nenhum índice de gordura. Só você não reparou nas botas que eu usei. Através de você descobri que tranquilidade não é o meu forte. A mesma piscina imaginária seca até a última gota. O meu sangue que é obra-prima e Caravaggio se recompõe nas profundezas. Este álbum de fotografias é o alcance que ninguém percebe. Um coração na prateleira.

Antonio LaCarne
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Neste começo de 2017 o poeta cearense Antonio LaCarne lançou seu mais novo livro; "Todos os Poemas São Loucos", pelo selo Gueto Ediorial. O selo é destinado a publicações na internet e disponibiliza o livro de Lacarne para download

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

NOITE.

A lua flutua entre as quatro paredes de meu quarto
Os prédios crescem muros aqui dentro,
Crescem alto e eu penso grande.

Jesus Cristo pregado na parede me olha,
Em monólogo, digo o que penso.
Sobre todas as perguntas não respondidas,
Ele me observa em silêncio.

De minha janela vejo que o mar está fechado para reformas,
Me pergunto que grandes mudanças farão
(faremos)
neste mundo.
Carros passam rápido
E o verde desliza pela paisagem.

Sinto que outro mundo está mais próximo de mim agora,
Revoluções dissolvidas em minhas mãos
Como pedras de gelo em meu copo.

Meus amigos estão cada vez mais distantes e sérios
Todos com empregos fixos nos bolsos.
Eu continuo sentado
E faço versos,

Se isso for poesia.

22/08/2005