sexta-feira, 11 de agosto de 2017

POEMAS DE PAULO HENRIQUES BRITTO.

III

Nem tudo que tentei perdi. Restou
a intenção de ser alguém ou algo
que não se pode ser, mas só ter sido;
restou a tentação do nada, nunca
tão forte que vencesse esse meu medo
que é a coisa mais honesta que há em mim.
Sobrou também o hábito vadio
de me virar do avesso e esmiuçar
as emoções como quem espreme espinhas.
Mas nada disso dói; a dor é um ácido
que ao mesmo tempo que corrói consola,
que arde mas perfuma. Isso que eu sinto
é uma coceira que vem lá de dentro
e me destrói sem dignidade alguma.

VII

A consistência exata dessa insônia,
a forma certa desse medo, o gesto
seco que rejeita essa necessidade
abjeta de ser quem não se é —
a aceitação completa da vontade
insuportável de querer o que
se quer, a sede obscena de tragar
o copo junto com a bebida — coisas
tão simples, que só pedem a paciência
sábia dos que aprenderam a se aturar,
a santa complacência de quem lambe
as próprias chagas e aprecia o gosto —
não por requinte de nojo, mas só
por nunca haver provado outro sabor.


Duas bagatelas

I

O que conheço de mim
é quase só o que sei,
e o que sei é quase só
o que não quero saber.
Resta saber se isso tudo
é só o começo ou se é o fim
ou — o que é pior que tudo —
se é tudo.

II

Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso.

GERAÇÃO PAISSANDU

Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam —
vontade de destilar depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno de vida.

________





Paulo Henriques Britto - Mínima Lírica
Companhia das Letras

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

OS MESMOS DIAS.

A noite me espia vazia
Falando que logo já será dia.
O sono que me vem agora lento como maré,
Não é a onda pesada que tentará me derrubar pela manhã.

Assim, sigo tentando destruir as horas do relógio
Sigo tentando destruir o medo no peito
Sigo tentando destruir este vazio de todos os dias,
Enquanto à noite me espia silenciosamente vazia
Me dizendo que logo, logo já será um novo dia.

29/07/2008 23:46

sábado, 29 de julho de 2017

LEIA ABAIXO UM DOS POEMAS.

Recebei as nossas homenagens



Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio



parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.
Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece.



Da vista e do visto



Mais uma vez é maio; não o levaste contigo;
horas se escrevem hoje com o lápis de sempre,
ultramar e um tanto adolescente; não o levaste,
maio, mês de meu aniversário, quando a melancolia
é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios;

vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste

maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo; algo,
porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei,
e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência
ou não, procuro e não encontro a minha antiga alegria.



Leia abaixo um dos poemas



Ana diz as palavras faltam quando
mais se precisa delas são apenas a sombrinha
do equilibrista, digo a Ana tantas vezes
sobrevivemos só por saber os nomes

não caímos não morremos, só quem nunca

esteve bambo no trapézio despreza o equilíbrio
zomba do vento, são as palavras que botam
a gente no alto, onde é melhor viver



de onde é melhor cair.



Romântica

Quantos de nós quereriam viver não a vida

mas o filme, quando a vida não é vida
e não se morre na morte e o que finda
não apodrece porque logo é outro set;

vida em que se passa a salvo de um dia

a outro sem que se viva a semana entre
eles; viver sob as ordens de um destino
por escrito que sabemos previamente



e o vivemos sem vivê-lo. A força dos fortes
que voam; bandos que matam sem matar;
fracos que não desistem; bravos que no fim
se vingam. Tantos de nós desejaríamos

ter vivido e ter amado amores desgraçados,

cuja beleza, tão bela, era mais bela que
a dor e a dor era mais a beleza que o doer.
Queríamos que fosse não a vida, mas

a cena e a canção crescendo no momento

certo da alegria, no instante do beijo,
no clímax. Close: quando errássemos,
bem na hora, a voz de um Deus dizendo



corta!
 ________
4 poemas de Eucanaã Ferraz, de seu livro "Sentimental".

sábado, 22 de julho de 2017

OUTROS DESTINOS.

 

Eu tinha alguma esperança e aí tudo morreu como um demônio em chamas.
Camila Fraga.
Era fim de tarde. Ela tinha me pedido para encontrá-la na velha praça. Quando cheguei, já tava lá sentada fumando um. Os brinquedos velhos e enferrujados que brincamos anos antes. Agora já parecia que muito tempo tinha passado. Aproximei e sentei ao seu lado.
-Como é que tá?
-Quebrada. Como se tivessem retirado algo de mim. De dentro de mim. Como se eu tivesse nascido com asas e tivessem arrancado de mim usando só as mãos.
Fiquei em silêncio. Peguei meu cigarro e acendi.
-Acho que entendo como você se sente.
-Acho difícil. Mas você pode tentar.
-É...
-A tarde está agradável.
-O fim dela.
-Pode ser o nosso fim também.
-Não seja tão dramática.
Ela riu pela primeira vez naquele dia. Pela primeira vez naquele mês, disso tenho certeza. Me senti feliz por ainda conseguir fazer alguém rir.
-Você lembra do tempo em que eu queria ser atriz pra poder sair dessa cidade?
-Claro.
-Eu queria sair dessa cidade, loucamente, desesperadamente, queria sair daqui, encontrar outro lugar pra ser meu, algum lugar que pudesse chamar de meu. Mas hoje em dia... Não... Não mais.
-Essa cidade é nossa. Talvez seja a única coisa que nos caiba.
-Sinto tristeza com isso.
-Eu também.
-Mas hoje em dia não poderia mais sair daqui. Sinto como se essa cidade fosse minha verdadeira mãe. Ela me mal criou, me aborta todos os dias.
-Tu quer uma cerveja?
-Quero.
Levantei e atravessei as duas pistas. Entrei num bar. Trouxe as latas. Continuamos sentados, fumando e bebendo.
-O que tu vai fazer agora?
-Não sei. Continuar vivendo.
-Vocês já tavam juntos há muito tempo.
-Muito. Foi um tempo que os relógios não poderiam contar. E agora sinto como se eu não tivesse mais nada.
-É a merda da vida. É como as coisas são. Você lembra daquela garota da banca de revistas por quem me apaixonei? Nem comprar revista eu comprava antes, mas passei a ir lá toda semana, e comprava algo dela. Naquela época eu trabalhava legal, tava com uma grana, tava me sentindo bem. Pensei que iria me querer. Ela não ficou comigo. Preferiu ficar um outro cara.
-O que você tá querendo dizer?
-Sei lá.
-Isso não tem a mínima comparação!
-É, eu sei... Foi mal.
Ficamos em silêncio. Fumando.
-Sabe o que eu mais gosto nessa cidade?
-Não.
-A forma como o pôr do sol chega. A forma como a luz deita sobre a cidade, sobre as ruas, os muros, sobre as pessoas. É uma luz dourada, é como se a cidade toda fosse banhada por ouro por alguns minutos de seu dia.
-Você tem razão, é algo bonito.
-E não posso deixar de lembrar todos os beijos dados nessa cidade, todos os abraços e apertos de mão. Simplesmente não consigo deixar de lembrar disso.
Puxei dois cigarros, acendi. Um pra mim e outro pra ela. Ficamos lá fumando e terminando a cerveja. A noite já cairia por completo. As pessoas começavam a caminhar nas calçadas saindo de seus trabalhos à procura de suas casas ou outros destinos.

2011

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CARTA SOBRE A FELICIDADE.

"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer por meio da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la. 

Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade. 

Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles. 

Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado. 

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida. 

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal. 

Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve. 

Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades. 

Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem. 

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.
 

Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo. 

Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir. 

É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.

Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem. 

Consideramos ainda a autossuficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil. 

Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita. 

Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte. 

Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas. 

Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor? 

Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses por meio das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável. 

Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau. 

Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais."
___________

Epicuro a Meneceu, em sua "Carta Sobre a Felicidade". Tradução e apresentação de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore.

sábado, 1 de julho de 2017

FRED.

Ninguém soube ao certo o que significou o que Fred tinha feito, se era um ato de loucura ou simplesmente um ato completamente imbecil. E muitos na cidade eram aqueles que diziam achar Fred um completo imbecil.
Seu nome real não era Fred. Ele mesmo tinha se dado este nome retirado de algum filme de ficção científica que viu muitos anos antes.
Ele tinha saído da cidade há cerca de três ou quatro anos antes do que veio a acontecer. Tinha meio que fugido da humilhação de ter encontrado sua mulher com outro, ter brigado com o cara, perdido, levado uma surra no meio da rua, e ainda escutado da mulher que ele sustentava, que ela estava dando para outro porque o outro era melhor que ele na cama. Ele passou uns três dias bebendo, caindo no chão das ruas, depois pegou algumas coisas e saiu da cidade. Quase ninguém o viu indo embora, somente uns velhos que ficavam sentados o dia inteiro vendo a rua passar.
Fred passou um tempo fora, ninguém achava que ele seria capaz de voltar, mas depois de uns três anos voltou.
Meio mudado, parecia que estava meio mudado, diziam os mais velhos. Caminhava pela rua, conhecia tudo e todos, mas seu jeito de andar e olhar eram como se visse tudo pela primeira vez.
Acho que todos sabiam ao que ele tinha vindo. Mas acho que ninguém queria ou podia fazer alguma coisa.
Fred comprou uma arma por onde andou, e de volta à cidade foi atrás de sua ex-mulher. Ela já não estava mais com o cara que deu uma surra nele. Na verdade nem chegaram a ficar juntos pra valer depois que ele foi embora. Quando Fred voltou, ela vivia com um jogador de sinuca, que é claro, passava mais tempo nos bares do que em casa. Fred foi atrás dela e do antigo amante. Sacou sua arma e deu um tiro em cada cabeça.
O que Fred poderia ter feito depois disso era fugir da cidade de novo, e dessa vez para não voltar. Mas o que ele realmente fez, foi comprar uma garrafa de uísque, se embebedar, e sair andando pelas ruas e atirando para o alto.
Os policias não vieram para conversa, teve troca de bala e acertaram pelo menos umas dez no corpo de Fred.
Acho que ele queria isso. Acho que depois de matar a mulher e o amante dela, não tinha mais o que fazer ou algum lugar para ir.
Eu era pequeno quando isso aconteceu. Tinha uns dez anos. E lembro do meu avô indo me levar para ver o corpo de Fred sangrando na calçada em uma noite fria. Seus olhos sem luz, sem vida, fitando o vazio. 
20/09/2011 01:27- 01:44

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O BURACO DA NOITE.

A noite é só um buraco negro
Por onde sonhos nascem e escorrem dentro do tempo 
Num vazio silencioso
mais preciso que podes imaginar.

A noite é só um local
Onde a memória surge em solavancos
Trazendo presságios dos pesadelos
Do dia que será amanhã.

29/05/08 13:50

"Nocturnal Visitors", 2014, Dewey Guyen

quinta-feira, 1 de junho de 2017

TU ACREDITA EM SONHOS?

-Tu já leu Kafka?
-Já, mas faz muito tempo, ainda estava na escola. Que é que tem?
-Nada, só estou me sentindo como um personagem dele.
-Qual personagem?
-E isso importa?!
-Deve importar.
-Sentir-se um personagem do Kafka já é ruim demais, não importa nada.
-Sabendo qual personagem é, de qual livro, você pode tentar entender melhor a situação.
-Tu acredita em sonhos ou coisas assim?
-Tipo, você tá falando de significados?
-É, isso aí.
-Que nada, isso não existe.
-Você acha?
-É... Mas minha irmã tem um livro, tipo um dicionário de sonhos, e às vezes eu vô lá, dou uma olhada.
-E aí?
-E aí nada. É tudo uma merda. As coisas que sonho nunca significam o que dizem no livro.
-Como assim?
-Você sonha uma coisa e o livro diz o que significa, tipo o que pode acontecer com você. Mas nunca o que sonho acontece como que eles dizem.
-Então você acredita, sempre vai ver o que é.
-Acredito porra nenhuma, é só costume, é igual a ligar a TV, você já sabe o que tá passando, mas mesmo assim liga pra ver o que tá passando.
-Sei lá, acho que acredito no significado deles.
-Porra nenhuma.
-Uma vez sonhei que andava na rua e via um pedaço de carne crua no chão.
-E aí?
-Bom, fui consultar uma mulher que lê mão. Ela disse que era coisa ruim, era mau presságio.
-E o que te aconteceu contigo de ruim depois do sonho?
-Comigo nada, mas com a minha mãe aconteceu. Ela morreu.
-Ela tava com câncer, Daniel. Ela ia morrer de qualquer jeito!
-Sei não cara.
-Tudo que tá na tua cabeça só tá na tua cabeça, tu vê o mundo e lá dentro da tua cabeça tem tipo um liquidificador, e eles batem tudo e te devolvem em pedaços, em papa, quando você tá dormindo. Num é nada mais que isso.
-Sei lá.
-Tu tá estranho. Fica com esse papo de Kafka e sonhos e coisa e tal. Tu tá é lendo demais.
-Bom, sei lá...
-De toda forma, se esse lance de sonho funcionasse pra algo, eu daria tudo mesmo era pra sonhar com os números da mega sena. Já conheci gente que jogava sempre, e nunca ganhava nada. Mas diziam sempre que um dia ainda sonhariam com os números.
-Isso seria bom.
-Aí sim.
Um apito tocou. Levantaram os dois do banco duro de madeira e voltaram para o segundo turno noturno do trabalho desgastante que pagava pouco. Do lado de fora ficava a escuridão colhendo as estrelas.
29/04/2011 04:18

quarta-feira, 24 de maio de 2017

CINCO.

Teu beijo em minha boca morde meu lábio inferior
Teus dentes caramelados me tocam a lembrança agora
Teu beijo ficou mascando a minha língua
Teu beijo ficou em mim mesmo quando decidiu partir,
                                                                 [Depois da noite de cinco amores que passamos. 

Meu corpo dói em cicatriz arranhada
Por tuas unhas
Tuas falanges queimadas.

Meu corpo com o cheiro do teu
Meu quarto com o cheiro do teu corpo
Em minhas mãos o cheiro do teu sexo

29/06/08 11:35

sábado, 13 de maio de 2017

SEM DESTINO.

-De verdade, eu só queria saber como ela tá.
-E eu é que vou saber?!
Os dois escorados no muro baixo.
-Eu só queria saber como ela tá. E se pensa em mim.
-Pensa, com certeza, mas é bem possível que não como você pensa nela.
-De lascá isso.
-De repente ela já pode ter te esquecido.
-É foda.
-De repente ela pode estar te esquecendo, e tu aí, nada de esquecer dela.
Perto de meia-noite, os dois fumando. No céu dava pra ver umas estrelas.
-Ela disse que queria que eu saísse desse lance. Mas o que mais é que eu vou fazê?!
-Mulher é foda, nunca tá satisfeita com o que tem, pode repará.
-Se eu não ganhá uma grana aqui, não sei mais o que faço.
-Hoje a noite vai até ser boa, tu vê as estrela?! Não vai chovê. Ruim é quando chove.
-Eu largo isso por ela, mas não sei mais onde ir.
-Porque tu num escreve um livro?
-Um livro?!
-É.
-E sobre o quê?!
-Sei lá, sobre qualquer coisa. Sobre você, sobre issaquí. Pode até vender, tem gente que se dá bem, e tu pode ganhar uma grana.
-E eu lá sei escrever porra nenhuma!
-Saca aquela estória do cara que morreu pra virá escritô?
-Nunca ouvi falar.
-O cara era escritô, mas ninguém publicava o que ele escrevia, daí ele forjou morte. Tipo, comprô atestado de morto e tudo, depois de morto começou a mandar os escritos por aí, e então porque tava morto, começaram a publicar os livro dele, e vendeu pra caralho.
-E aí, o que aconteceu depois?
-A mãe dele e a irmã ficaram recebendo o dinheiro. Ele ainda publicou 5 livros póstumos.
-Porra, o cara teve que morrer pra ganhar dinheiro.
-É.
-E tu tá dizeno que eu devo fazer o mesmo é, morrer pra ganhá dinheiro?!
-Bom, só tô te contano uma história que você não sabe.
-Essa é a história mais idiota que eu já ouvi na minha vida.
-Como falei, só tô te contano uma história que tu não conhecia.
Acenderam mais um cigarro.
-Tô pensando em ligar pra ela.
-Tu tem dinheiro aí?
-Não, quanto você quer?
-Queria dar uns tiro antes de começar.
-Tá foda.
-É.
-Eu vou ali ligar pra ela.
O outro ficou e terminou o cigarro. Depois de um tempo ele volta com a cabeça baixa.
-E aí?
-Não tava em casa.
-Bom, então vamo nessa, aquele coroa vai passar lá na boate, ele sempre solta uma grana legal. Queria cheirar antes pra dar uma força. Saca, aquele coroa é meio nojento, pelancudo pra carai.
-Pode crer que eu sei.
-Mas depois que ele liberar a grana eu compro. Te dou um pouco.
-Não, hoje não tô afim.
-Ia melhorar.
-Pode ser…
Afastaram-se do muro e começaram a andar na rua vazia e escura do centro da cidade.
  
14/03/2011 18:50

quinta-feira, 27 de abril de 2017

ENTRE ZERO E NADA.

Quando saiu do avião, sentiu que sua vida não mudaria. O tempo todo da viagem refletia sobre tudo que tinha acontecido e em como dali por diante tudo seria diferente. Mas ao colocar os pés em outra cidade, sabia que não existia recomeço, somente continuações.

Caminhou procurando um táxi sem saber aonde ir. Nos passos que deixava para trás; um marido, dois filhos e uma vida que considerava de falhas. Demorou muito tempo para ter tomado à decisão de sair, de mudar, de não ser mais o que vinha sendo sua vida inteira. Mas nos passos que seguiam, sabia e pensava que as coisas não seriam diferentes, tudo, aonde fosse, aonde estivesse, com quem estivesse ou completamente sozinha, tudo, seria sempre igual. A vida para algumas pessoas neste mundo não muda, as continuações são sempre repetições. Pensou e acenou pedindo um táxi.

Um velho senhor de olhos escuros e chapéu na cabeça veio pegar sua mala. Pra onde, senhora? Foi o que perguntou já dentro do automóvel. Ela ficou em silêncio por um tempo. O motorista olhava, depois de um tempo soltou um sorriso de quem não está se sentindo à vontade com a situação. Só então ela falou; Para um hotel... que esteja próximo... E que seja silencioso. Sua frase saiu entrecortada, os espaços de ar que ficavam entre as palavras mantendo silêncio pareciam facas invisíveis sendo jogadas na escuridão. O homem sorriu de novo já olhando para a estrada, sabendo que aquela mulher não sabia aonde queria ir. Alguns nascem perdidos, não importa quantas estradas sigam, sempre estarão entre o zero e nada.

A mulher olhava a cidade que não conhecia ainda e que não viria a conhecer. Em 20 minutos chegaram a um hotel. O motorista saiu do carro para abrir o porta-malas e pegar sua bagagem. Ela perguntou quanto era, depois pegou o dinheiro para pagar, não esperou o troco e entrou no hotel. No balcão pediu um quarto que fosse silencioso. O homem que a atendeu olhou para sua única mala quando falou que não teria quem levasse ao quarto. Não faz mal. A mulher falou. Pegou a chave e foi caminhando pro elevador. Seu quarto ficava no quinto andar. A cada andar ela sentia uma pontada no peito, sabendo que ali seria sua última morada. Quando chegou ao quarto, cansada, sabia que não faria mais esta jornada.

Saiu de casa roubando dinheiro do marido, deixando um menino entrando na adolescência que não conversava mais com ela, e uma menina que brincava com bonecas. Saiu de casa sem saber aonde iria. Iria onde o dinheiro desce para comprar uma passagem e pagar um lugar para morar, mas na descida do avião, sabia que aquele lugar nunca seria seu, como nenhum outro tinha sido. Que ali ela não conheceria outro homem por quem se apaixonaria. Sabia que não encontraria amigos que lhe agradasse. O mundo é oco, vazio, assim como este quarto de hotel em que vim parar. Pensou dentro do aposento.

Pedir um lugar sem barulho era essencial depois de anos vivendo com duas crianças gritando e correndo fazendo de tudo um objeto de percussão. E um marido que vivia aos extremos, quando não passava dias inteiros dentro de silêncio, passava dias gritando os problemas e a luta pelo dinheiro que sempre era pouco. Agora, ele deve estar gritando que está com pouco dinheiro, já que lhe roubei tudo que pude. Ela pensou, um quase sorriso.

“Tudo que pude”, deu para uma passagem de avião para uma cidade não tão distante da que morava, e o que sobrou daria pra umas duas semanas de estadia em um hotel modesto. Ela sabia o que vinha depois, e por isso sabia o que tinha que fazer agora. Não demoraria pro tempo passar. Se perguntou como, naquele quarto de hotel. Sair de casa para morrer em um quarto de hotel? Logo lembrou-se dos remédios que tomava para dormir, passados por uma médica quando ela disse que não conseguia dormir com tanto barulho e trabalho em seus dias.

Caminhou até o banheiro, se olhou no espelho, lavou as mãos. Voltou, caminhou até a janela, tocou o vidro grosso que não deixava som algum passar para dentro do quarto. De longe, viu subir um avião no aeroporto de onde tinha vindo. A caixa com os comprimidos estava na mala. Diante dela uma cidade inteira se movimentava e ela não escutava um som. Os carros se moviam no silêncio, as pessoas caminhavam nas calçadas em silêncio, os aviões aterrissavam e decolavam em silêncio. Um mundo dividido pelo vidro e silêncio, uma caixa, uma televisão sem som. E ali, ela sentiu uma forte vibração tomando sua cabeça e depois seu corpo. É como nascer. Ela pensou. E foi-se deitar na cama procurando sua mala.

12/04/2010 16:43

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Escorpiões Sobre Teu Corpo.


No momento final da madrugada
Vejo escorpiões dançando em ritmo alucinado sobre teu corpo,
E retirando de ti,
                        Meu veneno.


Retiram de mim tua verdade
Enquanto te contorces em um tipo de dança morta.


No final da madrugada
Escorpiões dançam sobre teu corpo.


13/02/2005 11:55

domingo, 26 de março de 2017

ALGUM AMOR.

Sua mulher está agora trepando com outro cara” ou “Seu cara está trepando agora com outra senhora!” – porém quando ele disse isso os resíduos eram da deixa.
Jorge Cardoso


- Ó máh, tu tem que me escutá, é o que tô dizenu, ela tá te traino com uns cara por aí.
Issac é meu amigo de infância, crescemos no mesmo bairro e estudamos quase que nas mesmas escolas.
- Eu num sei se tu tá sabeno, mas o fato é que a cidade inteira já tá sabeno e comentano.
Vivo com essa mulher há dois meses. Me mudei pra sua casa. A conheço pouco. Comparado com o tempo que conheço Issac, é dois por cento de uma relação. Estamos morando juntos porque perdi o emprego na mesma época em que começamos a sair.
[- Porque você quer continuar saindo comigo? Quero dizer, estou sem emprego, estou sem dinheiro. Quero dizer, não tenho nada pra te dar neste momento. Somente quem sabe só alguma companhia na hora em que você quiser e eu puder.
- Tá bom pra mim.]
Eu perguntei certa vez e ela falou. Então não discuti mais. Seria o que seria. A vida não é pra ser um grande mistério pra todos nós. E continuamos por mais um tempo, nos encontrando e fazendo sexo no carro dela nos estacionamentos por aí, e em ruas escuras. Passou mais um tempo e falei pra ela que não tinha mais casa.
[- Olha, não sei se vamos dar certo. Eu tô sem um puto. O dono da casa me procurou por antes de ontem e disse que eu tenho uma semana pra sair, que se eu não pago, existe outro que quer morar ali e tem dinheiro pra pagar. Tô sem grana, num tenho dinheiro e tenho que sair.
- Eu não vou te dar dinheiro pra você pagar sua casa, mas se quiser, pode ficar comigo por um tempo.]
Foi o que ela disse, então faz dois meses que estou morando aqui. Ela sai de manhã pro trabalho e eu fico em casa. Assisto um pouco de televisão, escuto música em seu aparelho de som, leio algum livro de espionagem que ela tem na coleção, bebo, fumo, saio para procurar emprego, mas ainda não apareceu nada. Ela chega no começo da noite, às vezes traz o jantar, às vezes eu mesmo preparo, e nos sentamos à mesa e comemos juntos e conversamos e rimos de coisas de nossas vidas e do cotidiano. Depois ficamos no sofá, sentados um perto do outro, abrasados, assistindo programas na televisão, rindo de quem quer ser feito de besta. Vamos pro quarto, fazemos amor, dormimos.
[- Eu ainda não encontrei emprego, mas estou tentando.
- Tudo bem, não tem problema. Você pode ficar aqui enquanto.]
Ela fala.


-Ó cara, eu sou seu irmão, tá ligado? E você tem que sabê que ela tá te traino. Ela te botou na casa dela, mas ela tá é por aí dando pra outros cara, te fazeno de corno. Todo mundo na cidade sabe, só tu que não.
Eu e Issac somos amigos de infância, somos como irmãos mesmo, ele sempre tenta me proteger, o que é algo realmente idiota.
-Eu sei Issac, eu sei que ela tá dando pra outros caras por aí, mas eu não tô pedindo nada pra ela, como ela não tá pedindo nada pra mim, nós só estamos juntos, dividindo algo. E não ligo porra nenhuma pro que o povo dessa cidade de merda pensa. Eu gosto tão pouco dessa cidade quanto ela deve gostar de mim.
12/01/2010



quinta-feira, 2 de março de 2017

UM BARCO QUE NAUFRAGA EM MAR TRANQUILO.

George Bellows


Perdi a sinceridade de teus olhos negros,
Eles agora vagam sem destino algum pela cidade.

Sou eu a pedra
Que nada é moldada por vento que venha
E me traga alguma novidade há meus dias ilhas,
Às minhas horas inóspitas,
A algum clamor por fogo.

Perdi meu caminho de volta para casa
Sou aquele barco naufragando em pleno mar tranquilo.

11/05/2001 00:07 - 00:17

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

ESCURIDÃO.

Não sei há quantos dias estou aqui. Não sei onde estou. É escuro, abafado, úmido. Sinto as paredes molhadas, talvez de meu suor. Existe um ventilador em uma das paredes, sei que está lá embora não o consiga ver por completo. Sinto o vento quente que sopra. O ar não circula no quarto, então o vento que sopra é quente. Meu suor. Está por todo meu corpo. Meu corpo está sempre molhado de suor. Isso me incomoda. Já estou me acostumando. Acorrentado dessa forma não posso fazer muita coisa. Não sei o que deveria fazer. Não sei há quantos dias estou aqui. Não sei por quantos dias mais vou permanecer neste lugar. Não sei o que fiz, elas não dizem, eu nunca pergunto. Eu não saberia como perguntar. E mesmo assim sei de antemão que elas não me responderiam.
As duas. Se revezam pra me trazer o que comer e o que beber. Não consigo ver o rosto de nenhuma. Só o formato do corpo. Às vezes consigo ver algo, quando existe luz. Elas mantêm o controle sobre a iluminação do quarto. Não tenho muito o que reclamar, fora essa corrente que me prende ao pé da cama, o resto é até razoável. A corrente está presa em minha perna e já começou a me ferir. Tudo bem que a culpa é minha. Quando acordei aqui, me mexia muito, tentava tirar, pensava que conseguiria, ainda não sabia que não seria possível.
Os olhos se acostumaram com a escuridão. No primeiro momento entrei em pânico. Acordei e só existia escuridão. Com o tempo consegui distinguir o que havia no quarto. Fora a cama onde acordei, sei do ventilador que sinto o vento. Existe um chuveiro, privada, descarga. Duas vezes por dia uma janelinha na parte de baixo da porta se abre e a comida é mandada pra dentro do quarto. Quando não, elas vêm aqui e me entregam a bandeja com o alimento e algo pra beber. Deixam água pra eu passar o dia. Não muita, só o razoável pro dia.
No começo, junto com as primeiras aparições, até pensei em atacá-las, mas cheguei à conclusão de que seria inútil. Entram, colocam comida perto de mim. Às vezes entram e ficam me observando, só isso. Algumas luzes são acessas e eu consigo ver um pouco de seus corpos, mas nunca o rosto. As luzes me cegam os olhos, quando são ligadas não consigo ver direito.
A mais bonita é calma. Sei que seu cabelo é preto, consigo sentir pelo toque, pelo cheiro. Suas pernas são bonitas, seus pés também. Gosto de beijá-los. Sei que ela gosta que eu faça isso, dês do princípio soube quando ela com luz só nas pernas e nos pés os colocou perto de mim enquanto eu estava deitado no chão. Eu sabia que tinha que ficar de joelhos e beijá-los, lambê-los. E assim faço. Beijo, passo a língua. Ela fica parada, sei que de cima me olha. Com ela o sexo é quente, consigo sentir seu calor sendo exalado. Seu sexo é quente e molhado, seu líquido me cai na boca. Sinto e gosto do cheiro do seu sexo, é calmo, quente. As luzes diminuem cada vez que ela senta em mim. Sinto suas coxas, seu sexo molhado molhando o meu. Mas ela me tortura quando está em cima de mim, me faz segurar o gozo por muito tempo. Somente quando ela chega a algum tipo de prazer que não sei qual é, aí sim posso gozar também.
A outra é diferente. Seu corpo é disforme, frio, consigo sentir quando o toco. Ela nunca toca em mim, nunca tocou, sou sempre eu que tenho que me aproximar, sou sempre eu que tenho que tocá-la. Um corpo disforme, frio, molhado de suor. Ao contrário da outra, ela sempre vêm nua. Seu sexo tem os pelos raspados por uma navalha ruim. Seu sexo é volumoso de carne, seu clitóris é grande, seu sexo tem um cheiro ruim, consigo sentir mesmo à distância, e quando ela se excita, o cheiro aumenta. Mesmo assim sei que tenho que me aproximar e o tocar com a língua. Gosto metálico. Mesmo sentindo nojo sei que tenho que o tocar com minhas mãos e minha boca. Às vezes a penetro. Mas só quando vejo que ela quer que eu faça isso.
Passo meus dias nisso. Essas visitas, alimentos. Não sei quem são elas. Não sei como cheguei aqui. Acho que há mais de dois meses, mas sei que também poderia ser menos. Sinto que fui drogado pra ser trazido, quando acordei senti aquela sensação de quem dorme há dias.
Não sei quanto tempo mais ficarei aqui trancado, sendo observado, alimentado e servindo para satisfação das duas. Sei que não posso perguntar. Sei que se mesmo assim o fizesse não receberia resposta. Não sei por quanto tempo será assim.

09/02/2009 00:41

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O POEMA.

Tua linguagem subterrânea te afasta do mundo.
Por acaso o poema é teu sol?
Ilumina teus sonhos, aquece teu espírito?
Ou é teu modo de viver sem a vida?
Teu encontro cotidiano com a morte?
Que fazes das palavras que te perseguem
em seu imantado mistério e em sua ordem?
Que fazes da unidade e do equilíbrio que elas te
        ofertam?
Se não percebes esse momento divino
uma flecha venenosa atravessará teu coração.
De nada te servirá a poesia.

José Alcides Pinto - Silêncio Branco

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

TODOS OS POEMAS SÃO LOUCOS.

marinheiro 

Eu sei que você e eu somos pessoas por quem os sinos não dobram e os cães não ladram; e que a realidade não é uma pista de dança, nem a vida uma piscina onde você se afoga e é resgatado com vida. Se eu preciso registrar o momento e você não está ao meu lado, o verão, o bronze, o neon desbotado dos motéis também perderá a cor e eu me perderei nas ruas como um cachorro abandonado. Em cada pedaço de chão ou apartamento vazio, as janelas que você escancara não mostram o mundo lá fora. A inundação da chuva, motoristas atolados, ciclistas sem direção: o amor sob as cobertas quando a + b são sentimentos descritos em livros por um narrador sem rosto ou fome. Deixo você ir e também me perco no asfalto — morrendo de sede como marinheiro sem âncora tatuada no braço.

espinha vertical
 
Imagine que você morra por dentro entre quatro ou doze semanas não consecutivas. Imagine do outro lado do telefone alguém que não te escuta. Já passou da meia-noite e você precisa dormir. Não há dinheiro no banco e os seus sapatos estão sujos. As esquinas são as mesmas. Por aí, as pessoas seguem e vão de encontro. Algumas, provavelmente muitas, estão amando. Elas fazem sexo, dormem abraçadas. Então aquela piscina imaginária invade os teus sonhos e a revelação das pichações nos muros são os recados que alguém nunca quis te dar. A noite é sombra e os vidros se partem. Por onde andará quem pensa em mim? O meu gato de estimação realmente me ama quando não está com fome? Se você se fizer de rogado, do chão não passarei. Eu era insensato, hoje quero colar um pedaço de mim. Eu me vi em cada calçada enquanto você cuidava do corpo, lindo, sem nenhum índice de gordura. Só você não reparou nas botas que eu usei. Através de você descobri que tranquilidade não é o meu forte. A mesma piscina imaginária seca até a última gota. O meu sangue que é obra-prima e Caravaggio se recompõe nas profundezas. Este álbum de fotografias é o alcance que ninguém percebe. Um coração na prateleira.

Antonio LaCarne
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Neste começo de 2017 o poeta cearense Antonio LaCarne lançou seu mais novo livro; "Todos os Poemas São Loucos", pelo selo Gueto Ediorial. O selo é destinado a publicações na internet e disponibiliza o livro de Lacarne para download