sábado, 2 de dezembro de 2017

SPIDERS.


Crawlin black spider”
Cat Power

Uma aranha negra teceu 
teias metálicas sobre mim,
Teias prateadas sobre meus ossos,
E já não posso mais me mover.

Sob a mesa de cabeceira,
Um fantasmas bebe e sorri,
Um inimigo me sorrindo de leve,
Enquanto a aranha continua me cobrindo com suas teias,
Da cabeça aos pensamentos
E então já não posso mais movê-los.

04/04/2008 13:55


sábado, 18 de novembro de 2017

O HOMEM COM CABEÇA DE CACHORRO.

O homem com cabeça de cachorro nasceu de parto normal.
Homem, dois braços, duas pernas, corpo humano, e uma cabeça de cachorro.
Nasceu de pai e mãe normais.
Criado pelos pais, recém-nascido, receberam proposta para viver e trabalhar em circo. Nunca aceitaram. Somente quando os pais morreram que passou a comprar a própria comida, vendendo a imagem de sua cabeça de cachorro por alguns trocados nas feiras exibicionistas.
Sua voz poucos ouviram. Quando abria a boca na tentativa de expulsar som, alguns jogavam pedra, corriam de medo, e existiam os que desmaiavam. Assim, aprendeu a comunicar-se por gestos.
Nunca teve amigos. Sempre viveu sozinho. Nunca foi amado por mulher alguma que não fosse sua mãe.
Vivia sozinho no antigo casebre dos pais mortos. As crianças iam até lá jogar pedras nas janelas onde não haviam mais vidros, só panos servindo de cortina.
O homem com cabeça de cachorro morreu sozinho já passando dos 30 anos, sentado em uma poltrona, de frente para uma TV desligada.
24/11/11 03:10 - 03:18

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A TARDE.

Leões rugindo nas ruas
mulheres flutuando nas calçadas
homens espreitam.

3 meninos vestindo camisas de guerra
levam escrito no peito
exército de Deus
enquanto fazem malabares no sinal
para ganhar uns trocados.

Em algum lugar do mundo
um vulcão entra em processo de erupção,
 do lado de cá,
as horas se arrastam,
e eu me cego olhando o sol
por minutos eternidades.

19/02/2008 13:32

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

CORAGEM.

 -E então, você vai fazer?
-Sei não...
-Deixa de ser frouxo, tô com a arma ali no carro, estacionei na rua de trás.
-O que eu ganho com isso?
-Te dô uma grana, e mais o que tu quiser na cama.
-Eu tenho emprego. E você já faz o que quero na cama.
-Faço mais.
-Tem uma coisa que eu sempre quis que fizessem.
-Fala, eu faço.
-Faz nada, nenhuma teve coragem.
-Se você fizer a tua parte eu faço sim, o que é?
-Nãm, nenhuma teve coragem.
-Eu faço.
-Conversa.
-Verdade, juro. Diz o que é.
-Você é uma mentirosa.
Nisso dou um tapa na cara dela. Faz barulho e ela se treme toda, bate com o corpo no copo, na garrafa, derrama cerveja. O bar inteiro olha. São sete caras e mais duas donas que estão acostumados com tudo, mas sempre reparam, nunca perdem.
-Seu filho da puta – ela diz. Está com raiva, os olhos arregalados, ódio puro. – Você não devia me tratar assim, você não pode.
-Ah, cala a boca. Deixa de drama, você tá acostumada com isso, leva do teu marido, por isso quer que eu mate o sujeito, já deve tá acostumada.
-Seu veado de merda. Tu num pode me tratar assim. Ele é meu marido, você é só um qualquer pra quem eu dô.
-Cala a boca.
-Eu vou te matar, seu merda.
-Besteira.
-Eu vou te matar.
-Se você tem tanta coragem pra me matar, então porque não vai lá e mata primeiro o corno do teu marido?! Besteira, você num tem coragem de nada.
E dou outro tapa. Ela levanta me olhando, o ódio puro lá, vai ser difícil dissipar. Caminha pra saída, de costas pra rua, me olhando fixamente. Fico sentado bebendo e fumando. Minutos depois é que a vontade bate. Levanto e vou ao banheiro. Abro a porta e entro. Fede muito. Mijo e merda. E mesmo assim levanto a tampa. Um trabalho bem feito. Olhando assim parece que existem três camadas. De pessoas diferentes? Abaixo a tampa sabendo que nem deveria ter levantado, quando se entra em banheiro de lugar como esse, se a tampa estiver abaixada é porque tem merda e não deram a descarga. Puxo a corda. Sem água. Que lugar de bosta! O pior é que agora não posso deixar pra lá, já enviei a mensagem que minha merda sairia, não dá pra enviar outra dizendo que agora fique guardada. Vou ao banheiro feminino. Olho se não tem ninguém, entro. A tampa levantada. Um balde com água ao lado. Sento e faço o serviço. A merda vai descendo mole. Depois me limpo e derramo o balde. O fedor sobe. Volto pra mesa. Peço mais uma cerveja. E é depois que o cara deixa na mesa que ela entra de novo no bar. Segurando a arma.
 -Seu filho da puta.
Ela diz. Nisso levanta o braço e começa a atirar. Me jogo na mesa derrubando copo, garrafas e bebida. Tento me proteger com os braços cobrindo a cabeça como se isso fosse resolver algo. Os barulhos são rápidos e logo acabam. Ela manda um tambor inteiro e nenhuma acertou em mim. Milagre, pode ser.
Logo depois todos saem correndo. Nenhum ferido. Essa louca poderia ter me matado ou qualquer pessoa neste lugar. Todos saem correndo, inclusive o dono.
Ela continua me olhando com o braço erguido. Depois o abaixa. Ódio pra caralho. Então ela dá de costas e vai embora.
Acreditei que ela não tivesse coragem de fazer algo assim, já que tinha me pedido pra dar fim no marido dela. Acreditei que não teria coragem de matar ninguém. Mas estava enganado, ela só não tem coragem é de matar ele.
Levanto ainda com o coração aos pulos. Saio do bar sem pagar, só continuo andando. Pelo menos ela serviu pra algo. Caminho pensando que poderia estar morto. E que foi uma decisão sábia não ter esperado muito pra ir ao banheiro.

16/11/11 - 02:54


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O PERIGO.

Acordo e já é dia, o sol entra pelas cortinas. Não sei que horas são. Então viro pra mesinha ao lado da cama e vejo no relógio digital em cores vermelhas que já passam das nove. Olho pro quarto espaçoso. Me sinto cansado. Ontem bebi muito. Sei que ela me trouxe pra cá, e já foi embora. Provavelmente pro trabalho. Não deixou recado no travesseiro ao lado, como nos filmes. Levanto da cama. Caminho um pouco pelo quarto, vou até a janela e vejo a rua. Um garoto passa de bicicleta. Vou ao banheiro. Espaçoso. Essa casa é boa, ela deve ter um bom emprego. Lavo o rosto. Saio. Caminho pelo corredor e encontro a cozinha, abro a geladeira. Ela tem um bom emprego. O que a fez me trazer aqui ontem? O que queria com um cara como eu? E ela foi embora e me deixou em sua casa. Caminho até a sala e sento no sofá, me esparramando como se isso tudo fosse meu por alguns minutos. Mas nada disso poderia ser meu, nada disso foi feito para um cara como eu. Sei que poderia me acostumar com isso, e então é onde sempre sei que está o perigo. Fito o teto e penso em cigarro. Levanto, volto pro quarto. Procuro e não encontro. Tenho que sair pra comprar. E então me deito de novo. E o sono vem novamente.


Acordo e vejo no relógio que dormi mais de uma hora. Levanto, vou ao banheiro, embaixo do chuveiro quase não penso em nada. Quase não penso em ficar por aqui o dia inteiro, depois sair, comprar algumas coisas, preparar um jantar pra ela quando chegar à noite. Quem sabe garantir sexo e hospedagem de graça por algumas semanas. Quase não penso que poderia morar nessa casa pro resto de minha vida enquanto ela vai trabalhar. Com aquela TV grande pendurada na parede, com aquela geladeira cheia de comida e bebida. Quase não estou pensando nisso enquanto me visto e saio do quarto. Caminho até a sala. Abro a porta e o sol cega meus olhos por um momento que parece uma eternidade.


12/01/2010 00:17 – 00:29

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A PEDRA.

Caminhava e sentia com a mão
O silêncio de minha pedra de estimação
Que levava dentro de meu bolso.

Meus olhos escorregaram até meus dedos,
Assim eu via tudo a cada minuto que existia,
E isso levou horas
Levou inteiro o dia.

A pedra cresceu no bolso,
Tive que carregar dentro de uma bolsa
De tão grande que ficou.

Dentro da bolsa a pedra explodiu,
Soltando água que nela existia
E comigo, senti tudo mais pesado.

16/01/2008 18:31

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

ILUMINURAS.

III

Nos bosques tem um pássaro, você pára e cora com seu coro.
Tem um relógio que não toca nunca.
Tem uma brecha no gelo com um ninho de bichos brancos.
Tem uma catedral que sobe e um lago que desce.
Tem uma pequena carruagem abandonada na moita, ou que passa correndo, decorada.
Tem uma trupe em trajes de comédia, espiada pela trilha da floresta.
E então, quando você tem fome e sede, tem sempre alguém que te manda passear.

IV

Eu sou o santo, rezando no terraço, — como os animais pacíficos pastando junto ao mar da Palestina.
Eu sou o sábio na poltrona sombria. Os galhos e a chuva se jogam contra a vidraça da biblioteca.
Eu sou o andarilho da grande estrada entre os bosque anões; o rumor das represas cobre meus passos. Me demoro vendo a triste fuligem dourada do pôr-do-sol.
Eu bem podia ser a criança abandonada no cais de partida pro alto mar, o caipira rodando as alamedas, sua cabeça roçando o céu.
Os caminhos são ásperos. Montesinhos se enchem de giestas. O ar está parado. Que longe os pássaros e as fontes! Isso só pode ser o fim do mundo, avançando.


CIDADE

Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole que julgam moderna porque todo estilo conhecido foi excluído das mobílias e do exterior das casas bem como do plano da cidade. Aqui você não nota rastros de nenhum monumento de superstição. A moral e a língua estão reduzidas às expressões mais simples, enfim! Estes milhões de pessoas que nem têm necessidade de se conhecer levam a educação, o trabalho e a velhice de um modo tão igual que sua expectativa de vida é muitas vezes mais curta do que uma estatística maluca encontrou para os povos do continente. Assim como, de minha janela, vejo novos espectros rolando pela espessa e eterna fumaça de carvão, — nossa sombra dos bosques, nossa noite de verão! — as novas Erínias, na porta da cabana que é minha pátria e meu coração, já que tudo aqui parece isto, — Morte sem lágrimas, nossa filha ativa e serva, um Amor desesperado, e um Crime bonito uivando na lama da rua.

__________

Iluminuras - Arthur Rimbaud 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

XENIA.

Meu tio se matou três dias antes do meu nascimento. Deu um tiro na cabeça com a arma velha e enferrujada que meu pai tinha comprado quando era moço. Minha mãe só ficava chorando, mas segurou firme. Me segurou firme por três dias. Então nasci.

Uma vez meu pai me perguntou por que eu tinha saído pra esse mundo, disse que era um lugar ruim de viver. Eu perguntei então porque ele tinha me colocado dentro da minha mãe.

Meus pais não se falavam muito. Meu pai quando bebia, me batia quando chegava em casa. Na escola, a maior parte dos garotos não gostavam de mim, muitos queriam me bater nos intervalos e no fim das aulas. Quase todos os dias eu tinha que enfrentar um cara que era maior que eu. Quase todos os dias eu tinha que provar que eu era mais forte do que os outros. Nem sempre eu vencia, mas batia neles também. Foi assim que começaram a me respeitar. Ou simplesmente começaram a esquecer de mim.

Comecei a roubar nos supermercados, colocava coisas pequenas dentro dos bolsos, dentro da bermuda, da camisa, e quando eles sacavam de me pegar eu corria feito um louco pelas ruas quase vazias ou às vezes lotadas.

Uma vez me pegaram, me levaram pra casa. Meus pais estavam lá. Não falaram comigo, não disseram nada. Era uma época ruim como qualquer outra, como todas as outras épocas de minha vida sempre foram. Meu pai estava sem trabalho, ficava em casa durante o dia, fumando, até que todo o dinheiro acabou e ele não tinha mais pro cigarro. Saiu e encontrou outro emprego. Era faxineiro em uma escola. Ele chegava em casa todo dia e dizia que odiava sua vida, que odiava seu trabalho, que preferia morrer, que queria morrer a continuar com aquilo, mas nunca fez nada como seu irmão fez, o que sempre me levou a pensar sobre a estranha necessidade que muitos de nós temos de continuar vivos, mesmo estando em situações nas quais nos sentimos completamente mortos por dentro.

O tempo foi passando e eu não sentia que estivesse mudando algo dentro de mim. Eu só passava meu tempo. Os garotos deixaram de me perturbar, mas eu não tinha amigos, ficava sozinho andando no pátio da escola enquanto os outros jogavam bola.

Um dia um garoto chegou falando que um tornado estava se movendo, que chegaria em nossa cidade naquela tarde. Ninguém nunca tinha visto algo assim, era só coisa de filme. Nós éramos crianças. Ficamos lá, depois da aula, esperando o tornado chegar.

24/10/2011 01:50

Andreas Duscha, Twister

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

POEMAS DE PAULO HENRIQUES BRITTO.

III

Nem tudo que tentei perdi. Restou
a intenção de ser alguém ou algo
que não se pode ser, mas só ter sido;
restou a tentação do nada, nunca
tão forte que vencesse esse meu medo
que é a coisa mais honesta que há em mim.
Sobrou também o hábito vadio
de me virar do avesso e esmiuçar
as emoções como quem espreme espinhas.
Mas nada disso dói; a dor é um ácido
que ao mesmo tempo que corrói consola,
que arde mas perfuma. Isso que eu sinto
é uma coceira que vem lá de dentro
e me destrói sem dignidade alguma.

VII

A consistência exata dessa insônia,
a forma certa desse medo, o gesto
seco que rejeita essa necessidade
abjeta de ser quem não se é —
a aceitação completa da vontade
insuportável de querer o que
se quer, a sede obscena de tragar
o copo junto com a bebida — coisas
tão simples, que só pedem a paciência
sábia dos que aprenderam a se aturar,
a santa complacência de quem lambe
as próprias chagas e aprecia o gosto —
não por requinte de nojo, mas só
por nunca haver provado outro sabor.


Duas bagatelas

I

O que conheço de mim
é quase só o que sei,
e o que sei é quase só
o que não quero saber.
Resta saber se isso tudo
é só o começo ou se é o fim
ou — o que é pior que tudo —
se é tudo.

II

Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso.

GERAÇÃO PAISSANDU

Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam —
vontade de destilar depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno de vida.

________





Paulo Henriques Britto - Mínima Lírica
Companhia das Letras

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

OS MESMOS DIAS.

A noite me espia vazia
Falando que logo já será dia.
O sono que me vem agora lento como maré,
Não é a onda pesada que tentará me derrubar pela manhã.

Assim, sigo tentando destruir as horas do relógio
Sigo tentando destruir o medo no peito
Sigo tentando destruir este vazio de todos os dias,
Enquanto à noite me espia silenciosamente vazia
Me dizendo que logo, logo já será um novo dia.

29/07/2008 23:46

sábado, 29 de julho de 2017

LEIA ABAIXO UM DOS POEMAS.

Recebei as nossas homenagens



Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio



parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.
Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece.



Da vista e do visto



Mais uma vez é maio; não o levaste contigo;
horas se escrevem hoje com o lápis de sempre,
ultramar e um tanto adolescente; não o levaste,
maio, mês de meu aniversário, quando a melancolia
é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios;

vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste

maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo; algo,
porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei,
e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência
ou não, procuro e não encontro a minha antiga alegria.



Leia abaixo um dos poemas



Ana diz as palavras faltam quando
mais se precisa delas são apenas a sombrinha
do equilibrista, digo a Ana tantas vezes
sobrevivemos só por saber os nomes

não caímos não morremos, só quem nunca

esteve bambo no trapézio despreza o equilíbrio
zomba do vento, são as palavras que botam
a gente no alto, onde é melhor viver



de onde é melhor cair.



Romântica

Quantos de nós quereriam viver não a vida

mas o filme, quando a vida não é vida
e não se morre na morte e o que finda
não apodrece porque logo é outro set;

vida em que se passa a salvo de um dia

a outro sem que se viva a semana entre
eles; viver sob as ordens de um destino
por escrito que sabemos previamente



e o vivemos sem vivê-lo. A força dos fortes
que voam; bandos que matam sem matar;
fracos que não desistem; bravos que no fim
se vingam. Tantos de nós desejaríamos

ter vivido e ter amado amores desgraçados,

cuja beleza, tão bela, era mais bela que
a dor e a dor era mais a beleza que o doer.
Queríamos que fosse não a vida, mas

a cena e a canção crescendo no momento

certo da alegria, no instante do beijo,
no clímax. Close: quando errássemos,
bem na hora, a voz de um Deus dizendo



corta!
 ________
4 poemas de Eucanaã Ferraz, de seu livro "Sentimental".

sábado, 22 de julho de 2017

OUTROS DESTINOS.

 

Eu tinha alguma esperança e aí tudo morreu como um demônio em chamas.
Camila Fraga.
Era fim de tarde. Ela tinha me pedido para encontrá-la na velha praça. Quando cheguei, já tava lá sentada fumando um. Os brinquedos velhos e enferrujados que brincamos anos antes. Agora já parecia que muito tempo tinha passado. Aproximei e sentei ao seu lado.
-Como é que tá?
-Quebrada. Como se tivessem retirado algo de mim. De dentro de mim. Como se eu tivesse nascido com asas e tivessem arrancado de mim usando só as mãos.
Fiquei em silêncio. Peguei meu cigarro e acendi.
-Acho que entendo como você se sente.
-Acho difícil. Mas você pode tentar.
-É...
-A tarde está agradável.
-O fim dela.
-Pode ser o nosso fim também.
-Não seja tão dramática.
Ela riu pela primeira vez naquele dia. Pela primeira vez naquele mês, disso tenho certeza. Me senti feliz por ainda conseguir fazer alguém rir.
-Você lembra do tempo em que eu queria ser atriz pra poder sair dessa cidade?
-Claro.
-Eu queria sair dessa cidade, loucamente, desesperadamente, queria sair daqui, encontrar outro lugar pra ser meu, algum lugar que pudesse chamar de meu. Mas hoje em dia... Não... Não mais.
-Essa cidade é nossa. Talvez seja a única coisa que nos caiba.
-Sinto tristeza com isso.
-Eu também.
-Mas hoje em dia não poderia mais sair daqui. Sinto como se essa cidade fosse minha verdadeira mãe. Ela me mal criou, me aborta todos os dias.
-Tu quer uma cerveja?
-Quero.
Levantei e atravessei as duas pistas. Entrei num bar. Trouxe as latas. Continuamos sentados, fumando e bebendo.
-O que tu vai fazer agora?
-Não sei. Continuar vivendo.
-Vocês já tavam juntos há muito tempo.
-Muito. Foi um tempo que os relógios não poderiam contar. E agora sinto como se eu não tivesse mais nada.
-É a merda da vida. É como as coisas são. Você lembra daquela garota da banca de revistas por quem me apaixonei? Nem comprar revista eu comprava antes, mas passei a ir lá toda semana, e comprava algo dela. Naquela época eu trabalhava legal, tava com uma grana, tava me sentindo bem. Pensei que iria me querer. Ela não ficou comigo. Preferiu ficar um outro cara.
-O que você tá querendo dizer?
-Sei lá.
-Isso não tem a mínima comparação!
-É, eu sei... Foi mal.
Ficamos em silêncio. Fumando.
-Sabe o que eu mais gosto nessa cidade?
-Não.
-A forma como o pôr do sol chega. A forma como a luz deita sobre a cidade, sobre as ruas, os muros, sobre as pessoas. É uma luz dourada, é como se a cidade toda fosse banhada por ouro por alguns minutos de seu dia.
-Você tem razão, é algo bonito.
-E não posso deixar de lembrar todos os beijos dados nessa cidade, todos os abraços e apertos de mão. Simplesmente não consigo deixar de lembrar disso.
Puxei dois cigarros, acendi. Um pra mim e outro pra ela. Ficamos lá fumando e terminando a cerveja. A noite já cairia por completo. As pessoas começavam a caminhar nas calçadas saindo de seus trabalhos à procura de suas casas ou outros destinos.

2011

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CARTA SOBRE A FELICIDADE.

"Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer por meio da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la. 

Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade. 

Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria. Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles. 

Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado. 

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida. 

O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não viver não é um mal. 

Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve. 

Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades. 

Se ele diz isso com plena convicção, por que não se vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem. 

Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.
 

Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo. 

Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir. 

É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.

Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem. 

Consideramos ainda a autossuficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil. 

Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita. 

Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte. 

Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos. De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade. Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas. 

Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor? 

Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses por meio das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável. 

Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau. 

Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais."
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Epicuro a Meneceu, em sua "Carta Sobre a Felicidade". Tradução e apresentação de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore.

sábado, 1 de julho de 2017

FRED.

Ninguém soube ao certo o que significou o que Fred tinha feito, se era um ato de loucura ou simplesmente um ato completamente imbecil. E muitos na cidade eram aqueles que diziam achar Fred um completo imbecil.
Seu nome real não era Fred. Ele mesmo tinha se dado este nome retirado de algum filme de ficção científica que viu muitos anos antes.
Ele tinha saído da cidade há cerca de três ou quatro anos antes do que veio a acontecer. Tinha meio que fugido da humilhação de ter encontrado sua mulher com outro, ter brigado com o cara, perdido, levado uma surra no meio da rua, e ainda escutado da mulher que ele sustentava, que ela estava dando para outro porque o outro era melhor que ele na cama. Ele passou uns três dias bebendo, caindo no chão das ruas, depois pegou algumas coisas e saiu da cidade. Quase ninguém o viu indo embora, somente uns velhos que ficavam sentados o dia inteiro vendo a rua passar.
Fred passou um tempo fora, ninguém achava que ele seria capaz de voltar, mas depois de uns três anos voltou.
Meio mudado, parecia que estava meio mudado, diziam os mais velhos. Caminhava pela rua, conhecia tudo e todos, mas seu jeito de andar e olhar eram como se visse tudo pela primeira vez.
Acho que todos sabiam ao que ele tinha vindo. Mas acho que ninguém queria ou podia fazer alguma coisa.
Fred comprou uma arma por onde andou, e de volta à cidade foi atrás de sua ex-mulher. Ela já não estava mais com o cara que deu uma surra nele. Na verdade nem chegaram a ficar juntos pra valer depois que ele foi embora. Quando Fred voltou, ela vivia com um jogador de sinuca, que é claro, passava mais tempo nos bares do que em casa. Fred foi atrás dela e do antigo amante. Sacou sua arma e deu um tiro em cada cabeça.
O que Fred poderia ter feito depois disso era fugir da cidade de novo, e dessa vez para não voltar. Mas o que ele realmente fez, foi comprar uma garrafa de uísque, se embebedar, e sair andando pelas ruas e atirando para o alto.
Os policias não vieram para conversa, teve troca de bala e acertaram pelo menos umas dez no corpo de Fred.
Acho que ele queria isso. Acho que depois de matar a mulher e o amante dela, não tinha mais o que fazer ou algum lugar para ir.
Eu era pequeno quando isso aconteceu. Tinha uns dez anos. E lembro do meu avô indo me levar para ver o corpo de Fred sangrando na calçada em uma noite fria. Seus olhos sem luz, sem vida, fitando o vazio. 
20/09/2011 01:27- 01:44

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O BURACO DA NOITE.

A noite é só um buraco negro
Por onde sonhos nascem e escorrem dentro do tempo 
Num vazio silencioso
mais preciso que podes imaginar.

A noite é só um local
Onde a memória surge em solavancos
Trazendo presságios dos pesadelos
Do dia que será amanhã.

29/05/08 13:50

"Nocturnal Visitors", 2014, Dewey Guyen

quinta-feira, 1 de junho de 2017

TU ACREDITA EM SONHOS?

-Tu já leu Kafka?
-Já, mas faz muito tempo, ainda estava na escola. Que é que tem?
-Nada, só estou me sentindo como um personagem dele.
-Qual personagem?
-E isso importa?!
-Deve importar.
-Sentir-se um personagem do Kafka já é ruim demais, não importa nada.
-Sabendo qual personagem é, de qual livro, você pode tentar entender melhor a situação.
-Tu acredita em sonhos ou coisas assim?
-Tipo, você tá falando de significados?
-É, isso aí.
-Que nada, isso não existe.
-Você acha?
-É... Mas minha irmã tem um livro, tipo um dicionário de sonhos, e às vezes eu vô lá, dou uma olhada.
-E aí?
-E aí nada. É tudo uma merda. As coisas que sonho nunca significam o que dizem no livro.
-Como assim?
-Você sonha uma coisa e o livro diz o que significa, tipo o que pode acontecer com você. Mas nunca o que sonho acontece como que eles dizem.
-Então você acredita, sempre vai ver o que é.
-Acredito porra nenhuma, é só costume, é igual a ligar a TV, você já sabe o que tá passando, mas mesmo assim liga pra ver o que tá passando.
-Sei lá, acho que acredito no significado deles.
-Porra nenhuma.
-Uma vez sonhei que andava na rua e via um pedaço de carne crua no chão.
-E aí?
-Bom, fui consultar uma mulher que lê mão. Ela disse que era coisa ruim, era mau presságio.
-E o que te aconteceu contigo de ruim depois do sonho?
-Comigo nada, mas com a minha mãe aconteceu. Ela morreu.
-Ela tava com câncer, Daniel. Ela ia morrer de qualquer jeito!
-Sei não cara.
-Tudo que tá na tua cabeça só tá na tua cabeça, tu vê o mundo e lá dentro da tua cabeça tem tipo um liquidificador, e eles batem tudo e te devolvem em pedaços, em papa, quando você tá dormindo. Num é nada mais que isso.
-Sei lá.
-Tu tá estranho. Fica com esse papo de Kafka e sonhos e coisa e tal. Tu tá é lendo demais.
-Bom, sei lá...
-De toda forma, se esse lance de sonho funcionasse pra algo, eu daria tudo mesmo era pra sonhar com os números da mega sena. Já conheci gente que jogava sempre, e nunca ganhava nada. Mas diziam sempre que um dia ainda sonhariam com os números.
-Isso seria bom.
-Aí sim.
Um apito tocou. Levantaram os dois do banco duro de madeira e voltaram para o segundo turno noturno do trabalho desgastante que pagava pouco. Do lado de fora ficava a escuridão colhendo as estrelas.
29/04/2011 04:18

quarta-feira, 24 de maio de 2017

CINCO.

Teu beijo em minha boca morde meu lábio inferior
Teus dentes caramelados me tocam a lembrança agora
Teu beijo ficou mascando a minha língua
Teu beijo ficou em mim mesmo quando decidiu partir,
                                                                 [Depois da noite de cinco amores que passamos. 

Meu corpo dói em cicatriz arranhada
Por tuas unhas
Tuas falanges queimadas.

Meu corpo com o cheiro do teu
Meu quarto com o cheiro do teu corpo
Em minhas mãos o cheiro do teu sexo

29/06/08 11:35