quarta-feira, 30 de março de 2016

DIRTY DREAM #3

Estou dormindo e sinto uma presença. Tento acordar mas não consigo ver nada, tudo turvo, cinza. Carlos, escuto uma voz de mulher me chamando. Não me assusto, sei que estou dormindo só, sempre durmo só, só gosto de dormir só. Tento abrir os olhos e vou conseguindo aos poucos. Vejo o teto do quarto, vejo que já é dia, vejo minhas mãos em cima da barriga, mas não consigo me levantar. Sei que estou dormindo ainda e não consigo me levantar. Tento por minutos acordar, sei que durmo e que isso é aquele negócio da paralisia do sono. Tento. Tento. E vou ficando cansado, vou voltando pruma escuridão até tudo ficar escuro mesmo. E quando já estou caindo. Ei. Escuto bem próximo. É uma voz de homem dessa vez. Então me assusto mesmo e vou abrindo os olhos. Vejo o teto do quarto. Tento levantar mais não consigo. Sinto aquela sensação estranha de que tem alguém no quarto comigo. Mais de uma pessoa. Deitado vejo o teto e pouca coisa ao meu redor. Sinto aquele calafrio, meu corpo todo se arrepia e eu não gosto da sensação. Abro os olhos de novo e tento me mexer, mas não consigo. Então começo a gritar. Aãããããã Aãããããã Aããããã o grito mongoloide saindo mole da minha boca. Acho estou gritando mesmo, fora do meu sono. E me toco que mesmo que alguém consiga ouvir, nada podem fazer, a porta está trancada. Sempre tranco a porta do quarto quando vou dormir. Não consigo acordar e vou ficando cansado. Então vou parando. Tento me acalmar. Fecho os olhos de novo. E vou tentando acalmar. Então volto a dormir de novo e sonho, ou penso que durmo e sonho, ou então sonho que estou pensando que estou sonhando. Que acordo, e levanto da rede, vou até a porta e giro a chave, mas deixo a porta fechada, depois sento na cama, depois deito. Fico olhando pro teto. Me sinto cansado mesmo tendo levantado agora. Sempre me sinto cansado depois que acordo. Fico olhando pro teto e então vou ficando com sono novamente. Sinto a dormência vindo de dentro pra fora e resolvo voltar a dormir. Aos poucos vou relaxando e vou caindo na escuridão. Então sonho que estou em uma cidade cheia de prédios e as pessoas passam correndo e falando que vai acontecer uma reunião onde os militares vão resolver se destroem tudo ou não, e eu começo a andar depressa com as pessoas que passam pra ir a praça onde vai acontecer a reunião. A cidade é cheia de prédios cinza e grama verde no chão. Vou andando e correndo com as pessoas que dobram esquinas e seguem em ruas. Então acordo. Vejo o teto e vejo que já é dia. Fico deitado olhando pro teto me sentindo cansado.

segunda-feira, 28 de março de 2016

VAMO CONVERSAR DEVAGARZINHO.



Envelhecer e morrer são duas certezas que temos nisso que chamamos de vida. E a eterna mudança de tudo que nos rodeia é outra. O tempo que é impiedoso. E é bom que não exista perdão. Até porque não existe nada o que perdoar.

(pronto, beleza, agora que já começou no drama, é só dar aquela relaxada, continua)

Mas existe uns momentos em que você fecha os olhos e pensa; Pra onde é que eu fui? Onde eu fui soltando os meus pedaços por aí? Pra eu voltar e procurar e catar e tentar colar, reaver alguma coisa. Qualquer coisa que for.

São momentos como de um fim de feriadão desses que você se toca que já foi. Pra onde? Sei lá. E faz diferença saber? Mas que já foi. E ficar lembrando de que uns anos atrás eu pegava 4 dias como esse e assistia no mínimo uns 8, 9 filmes. Lia pelo menos uns 2 livros. Caramba, lembro do fim da adolescência de ir pra biblioteca nas sextas-feiras de noite, pegar um livro e na segunda já tá de volta pra devolver o livro lido e pegar outro título. E hoje, 4 dias, um filme visto, outro esperando pra terminar, e 3 episódios de um seriado em que eu tenho sérias dúvidas de conseguir chegar ao fim. Livro?! De boa, só empacado com 4 por aqui. Um dia eu termino de ler. Pressa pra quê nessa vida? Pra comer?

(beleza, mais enrolado não tem, mas termina, já deu)


Feliz Páscoa pra todos e boa semana pra todo mundo. Graças a Deus.


terça-feira, 22 de março de 2016

DUAS RODAS.

Dia desses tava voltando pra casa e fiquei pensando em como tá um pouco mais tranquilo andar de bicicleta por Fortaleza. Depois que virou moda andar de bike pela cidade, os motoristas tiveram que começar a respeitar um pouco mais os ciclistas.

Quando eu era moleque, praticamente toda noite eu pegava a bicicleta preta que eu tinha e saia pra dar uma volta. Eu nunca tinha aonde ir especificamente, então entrava e saia de ruas do meu bairro, ia até outros bairros e era tranquilo, o movimento de carros era menor na época e o povo respeitava mais. Tinham os assaltos, que eram praticamente o único perigo. Mas a qualquer hora do dia era de boa andar de duas rodas pela cidade.

Numa tarde quando eu voltava da aula, dois caras em uma bike apareceram e um deles me deu uma voadora e levou minha pretinha. Dai sem duas rotas comecei a andar mais de pé dois. O tempo foi passando, Fortaleza começou a crescer de uma forma estranha e o trânsito foi ficando mais intenso, se tornando um grande problema.

Talvez por isso, juntando uma moda meio fitness na cidade, o prefeito colocou as bicicletas por aí. Pro povo deixar de andar de carro ou ônibus e começar a ir mais de bike pros cantos, pra tentar dar uma diminuída no volume de carros nas ruas.

Virou moda andar de bike na cidade. O povo se encontra pra pegar as bicicletas da prefeitura e ficar andando pela Bezerra de Menezes na via das bikes. O povo se encontra em grupos e ficam pedalando de bairro pra bairro, as vezes até indo em cidades vizinhas. Você encontra vídeos de filósofos andando pelados pelas ruas fazendo “protestos” pedindo mais respeito aos ciclistas, falando que a bicicleta também é um corpo que anda pela cidade, umas frescuras e baitolagens de astirtas, mas que de toda forma pode servir de algo, se for para que o povo comece a ver mais os ciclistas e passe a respeitar.

Eu tava pensando nisso dia desses quando vinha na 13 de Maio, uma avenida com um fluxo de carros e ônibus gigantesco. Tava pensando nisso enquanto pedalava e via as marcas de batidas no chão. Lembrei em como era pouco viável andar em alguns lugares nessa cidade de bicicleta. A 13, por exemplo, era uma avenida em que tinha batida de carro ou de ônibus pelo menos umas 3 vezes ao dia. Era raro passar por lá e não ver isso acontecer ou já ter acontecido. E agora os motoristas tendo, mesmo que a contragosto, respeitar um pouco mais o povo que também tá na pista com eles.


Ainda tem muitos bugs pra concertar, é certo. Faltam faixas pros ciclistas pelo resto da cidade, não só nos bairros ricos, como foi primeiro colocado. Mas quem sabe, quem sabe, num futuro bem distante, as coisas melhorem um pouco mais. Quem sabe.

sábado, 19 de março de 2016

FELLS LIKE TRASH.



Bully foi formada em Nashiville em 2013, lançaram um ep em 2014 e no ano seguinte “Fells Like”, o primeiro disco, com umas porradinhas mesclando Punk com Indie Rock.



Nos vocais Alicia Bognanno, vinda de Minnesota. Alicia é uma loirinha lindinha que quando abre a boca solta uns berros consideráveis. O jeito de cantar que vai calmo e nos refrões pro roco rasgado em músicas como “Too Tough”, “Trying”, “Trash” e "Six" me lembraram na primeira audição algo meio PixiesBreeders. E o som da banda talvez esteja por aí, pela banda de Black Francis, Kim Deal, o Nirvana de Cobain, e algumas outras bandas dos anos 90. Talvez seja isso. Quem sabe eles tenham outras influências que ainda não consegui pegar. De toda forma, “Fells Like” vem mostrando o som que a banda quer fazer e é um bom disco de estreia. Pode soar um pouco repetitivo na primeira audição, mas pra mim tá valendo escutar, é bom ver gente gritando em microfone, fazendo música com guitarra e distorção, tentando ainda trazer alguma vida, mesmo que seja no grito, pra esse lance chamado Rock.

Pra quem tiver afim de dar uma conferida no som da banda, aqui tem link pra download via torrent. Ou você pode ouvir on line nessa apresentação que fizeram pra Kexp.

quinta-feira, 17 de março de 2016

ESSE DIA FOI LOKO.

-Béisso Dilma?
-Qui foi?
-Mé qui tu faz uma palha assada dessa?
-U que?!
-Essa parada do teu áudio cum Lulinha!
-Quê qui tem pivete?
-Todo mundo tá sabenu.
-Di história doido, eu mandei o áudio pu nosso grupo fechado.
-TU MANDOU FOI PRO GRUPO CAGENTE TEM QUE O JUIZ TÁ LÁ TAMBÉM!
-Foi não meimão.
-Foi sim.
-Foi não
-Foi sim!
-Vixe pivete, eu mandei errado ó. Mauz aí. Pensei que tinha mandado praquele nosso grupo que fica falando de Big Brother, Inês Brasil e tal.
-Nam, tu mandou foi pro juiz, cumadi.
-Já caiu na net?
-Tá vacilanu é! Foi passanu de whats pra whats e já caiu foi na Globo, dona, tá todo mundo ovinu!
-Vixe doido. E agora?

-Agora quebrô dentu! Fecha as porta que o povo vai tentá arrombá.


segunda-feira, 14 de março de 2016

LARGE DRAWINGS.

"I Love New York"

"Lyme Disease"

"Odalisque"

"Self Portrait with Hunting Cap"

"buck naked"

5 desenhos da pintora Rebecca Morgan.

sexta-feira, 11 de março de 2016

PLAY #3.

Sexta-feira, então vai mais uma playlist com uns sons, pra quem sabe animar você que passa por aqui, como animou uma noite minha por aí.


sábado, 5 de março de 2016

O CABEÇA DE PROZAC.



Tô tentando aproveitar esse recesso pra ler uns livros e escrever umas coisas. Entrei numas de estudar a bíblia, fazia tempo que eu só ensaiava, abria e depois perdia o interesse dias depois, mas agora entrei mesmo na onda. Comecei faz pouco, e ainda tô na Gêneses. Engraçado que dias depois de começar, me caiu nas mãos as traduções que o Haroldo de Campos fez prumas partes do grande livro. Aproveitei a viajem e fui dar uma conferida nas traduções poéticas do Haroldo, e é muito belo.

Daqui uns dias termino o começo do começo e passo prumas outras ficções. A ideia é entrar numas leituras e me conectar com outras coisas por aí. Tô aproveitando pra escrever uns textos também, umas histórias, coisas pra ficar postando por aqui ou pra algum lançamento futuro. Escrever é um trabalho maldito, viu, quem escolhe isso pra pagar as contas é quase pior que pião de obra. Os pião pelo menos são mais alegres em mesa de bar e em puteiro. Escritor é bicho triste aonde estiver, até de frente prum papel ou tela batendo letra.

Levando em conta minha lentidão em fazer as coisas, misturado com minha procrastinação crônica, tanto meus estudos quando meus escritos vou demorar pra conseguir terminar. Mas não existe pressa de nada nessa vida quando se pensa no que realmente virá. A presa é só mais uma doença que criamos pra ajudar a passar o tempo. 

De toda forma, pra quem quiser umas postagens mais corridas, tem o Prozac Head, meu tumblr, que alimento como se fosse um filho com material porn de classe, e como o povo me fala; "taras" e coisas esquisitas bonitas de ver, e músicas boas de ouvir. Então as vezes tem um material mais 18, mesmo prumas pessoas que já passaram dos 18 à muito tempo mas ainda não saiu da infância, então pode incomodar a rapeize artista sensíve. Qualquer coisa tem a versão infantil no faceboga, é só seguir a página.

P.S: Sei borquê, vou me arrepender de mandar esses links.

quarta-feira, 2 de março de 2016

AS IMPUREZAS DO BRANCO.

Estava recolhendo material pra fazer um trabalho, tinha que desenvolver um projeto qualquer. O professor tinha deixado em aberto, escrever sobre qualquer coisa envolvendo um tema que lançou. Era tanta liberdade que eu mal sabia por onde começar. Então estava procurando assunto. Tinha pensado que rodaria bastante procurando, mas não foi necessário, encontrei sobre o que eu deveria escrever perto de casa, há algumas esquinas.

Perto de onde eu moro existia uma boate de strip tease de uma antiga dançarina que se tornou famosa, muito mais quando deixou de ser dançarina e passou a ser deputada da cidade. Depois que a boate fechou, algumas das meninas que trabalhavam lá dentro passaram a trabalhar do lado de fora. Eu passava por ali sempre, olhava as garotas. Decidi que algo nelas seriam meu assunto.

Aos poucos me aproximei com conversa. Elas gostavam de contar suas histórias, gostavam de ter um pouco de atenção sobre elas. E atenção é algo que elas nunca tinham. “Os caras sempre vem, dizem o que querem, pagam e depois vão embora. É legal você vir aqui e perguntar as coisas da vida da gente.” Foi o que uma das meninas me disse. Elas queriam um pouco de atenção.

Aos poucos de tanto ir conversar com elas fiquei amigo de algumas. Beatriz era a mais chegada. Eu aparecia sempre cedo, quando elas estavam ainda no começo do trabalho. Ficava conversando com elas, celular na mão gravando. Conversávamos um pouco, elas me contavam umas coisas. Nós riamos de algumas, depois eu vinha para casa tentar passar tudo pro computador, e elas iam trabalhar.

Em uma noite eu estava passando pela rua onde ficavam, vinha da casa de um amigo e dei uma passada pra cumprimentar algumas das garotas. Estava Carla, Beatriz e mais duas garotas. Cumprimentei, e perguntei por uma outra menina. Beatriz disse que ela tinha saído com um cliente. Fiquei uns minutos conversando e fumando um com Beatriz. “Meio fraco hoje, é terça-feira, amanhã melhora, depois vem quinta e aí o fim de semana, aí os caras saem dos seus empregos com vontade de tirar o estresse e vem atrás da gente aqui.” Ela me falou.. Segundo Beatriz, todo cara que tem boa vida é infiel. “Eles sempre se estressam muito pra ganhar o dinheiro deles, pra manter um nível de vida que eles acham importante, mas não encontram satisfação, daí vem procurar a gente, que não temos nada com a vida deles e que não temos interesse em fuder eles de alguma forma. Agente só quer o pagamento, e eles a boceta.”

Quando eu disse que iria embora, ela me segurou pelo braço; “Fica mais um pouco”, falou. Eu disse que tudo bem, nos afastamos um pouco das outras e ficamos conversando. “Olha, eu quero te dar uma coisa. Você vem comigo no meu apartamento?”. Ela falou, “O que você vai me dar?” perguntei. “Chega aí. Vem ou não?”. E eu disse que sim. Ela falou com as duas garotas que sairia e seguimos pro seu apartamento. Bia morava em um prediozinho perto da rua onde trampava, com uma colega que também era do ramo, mas que fazia ponto em uma casa em outro bairro. Enquanto caminhávamos, ela me contou que já passou perrengues por fazer ponto ali, as pessoas a reconheciam e já tinham tentado tirar ela do prédio. “Tem muita gente paia, muito preconceito, pensam que só por que você é puta, que também rouba. Claro que tem muita menina que faz, mas eu faço o que faço já para não pegar no que não é meu.” Ela soltou. Bia era uma menina inteligente pra caramba, bonita, gente fina mesmo, eu gostava dela.

Chegamos ao prédio, ela acenou pro porteiro e ele abriu pra gente. Pegamos o elevador. Subimos em silêncio, eu queria puxar uma conversa, mas não sabia o que falar mais, sempre fui ruim de conversa. Entramos no apartamento, que era pequeno, mas dava pra duas pessoas. Sua amiga estava no quarto, dia de folga. Bia foi lá, conversaram um pouco, depois veio e me levou pra seu quarto. Sentei na cama. “Tá aqui por perto o que tenho pra ti”. E ela mexeu dentro do guarda-roupa um tempo. Depois ela se virou com um livro na mão. “Eu escutei naquele dia que você gostava de poesia, daí lembrei que eu tinha este livro a um tempão, que eu comprei nem me lembro mais onde, faz tempo ó. Mas que eu gostei e pensei em te dar, se é que você já tem. Você já tem?”. Tratava de um livro do Drummond, “As Impurezas do Branco”. Eu não tinha esse livro, nem lido. “Não Bia, eu não tenho.” falei enquanto admirava o livro. “Você gosta dele, do Drummond?” ela me perguntou. “Gosto sim.” Falei. “Pois é pra ti o livro. Eu queria ter colocado em um papel legal, mas não me lembrei de fazer isso antes, e também o livro nem é novo.” Ela falou. “Valeu mesmo, mó presentão ó, esse aqui.” Falei. Ela sorriu pra mim quando me ouviu falar. Eu calei em um silêncio de quem não sabe mais o que dizer, fiquei olhando o livro, o velho Drummond antes nas mãos da garota. Daí ela foi se aproximando de mim e passou a mão no meu cabelo. Ela veio e me beijou enquanto me abraçava. Meu coração bateu estranhamente forte e eu fiquei inquieto. Ficamos nos beijando um bocado de tempo, e nos olhando. Depois nos afastamos. Ficamos conversando um tempo sobre o livro, e depois ela disse que tinha que voltar pra rua.

Descemos em silêncio e na rua nos despedimos, fui pra casa e ela voltou pro trabalho.


31/10/2008 17:16