terça-feira, 30 de junho de 2015

O AMOR E SUAS DORES.


Conheci o trabalho de Sharon Van Etten em 2012, logo após ela ter lançado “Tramp”. Conheci por acaso enquanto ouvia outra cantora, e Sharon apareceu como nome relacionado. Ouvi seu som e de imediato ele me instigou pra procurar seu, na época, recente disco. E “Tramp” me pegou de imediato. Eu sentia mais e mais vontade de ouvir suas músicas, mas sabia que tinha que ter cuidado. Sharon Van Etten é uma cantora que tem que ser ouvida com moderação e bastante cuidado, suas canções sempre melancólicas, dramáticas e com temas sofridos do amor podem te pegar de jeito e te derrubar pelo caminho. Um tempo depois que conheci seu trabalho uma de suas canções entrou na trilha do seriado “The Walking Dead”, e eu imaginei que ela explodiria para o grande público, e torci para isso.



Em 2014 ela lançou “Are We There”, e então eu já era um fã confesso da moça aguardando um novo lançamento. Logo após ter dado o play na primeira faixa eu sabia que coisa boa vinha por lá, e que mais uma vez eu teria que ter cuidado, o dramático, a melancolia estava presente, e eu teria que ter calma pra ouvir.



“Are We There” é realmente um disco que tem que ser ouvido com calma. Não é um disco que se pode ouvir a qualquer momento, a carga dramática desenvolvida nas canções é bem alta. Sharon vai cantando sobre as “sofrencias” do amor, usando de suas experiências pessoais, usando sua voz em fortes melodias para exorcizar seus demônios. E isso é muito forte. Sua música é forte, e embora muito triste, você não consegue deixar de ouvir depois que ela te pega.

Cantando sobre medo e amor, Sharon é capaz de detonar uma bomba dentro de você usando sua voz, e faz isso calmamente enquanto fala das dores que o amor causa. Exemplo disso é a canção que abre o disco, e uma das minhas favoritas “Afraid of Nothing”, em que Sharon canta, “I can't wait til we're afraid of nothing, I can't wait till we hide from nothing”. Sharon canta sobre o medo, como alguém que mal pode esperar para deixar de ter medo, e se esconder. E eu canto junto.

Em certas músicas, Sharon canta o amor como uma dor da qual não se pode fugir, como se o amor fosse um tormento, um tipo de tortura. Exemplo disso é a mais que dramática “Your Love is Killing Me”, música que vai crescendo de uma maneira doída em quem ouve.

“Are We There” é um disco triste, para aqueles dias cinzentos e chuvosos que você já acorda melancólico, com aquela dor no peito, e quer uma companhia. Sharon Van Etten é essa companhia, uma das melhores pra esses momentos. E então você senta com ela, dá o play, e aproveita a conversa.



Abaixo, uma apresentação da moça na KEXP.

 

terça-feira, 23 de junho de 2015

ESTE HOMEM.


I

E então um deus falou:
Este é um homem condenado
Por todos seus sonhos,
E deveria, mas nunca
Será redimido
Ou conhecerá a salvação
Porque conheceu o fogo
E é, em sua carne, o fogo
Que queima mas não destrói
Como a música desesperada
O instinto incontrolável e suicida
De todos os sonhos condenados,

Este homem
É um ritual autofágico
De tambores
Dos trompetes estranhamente silenciosos
Em seus sons diabólicos,
A mágica do inferno
No cérebro, na alma, nos ouvidos
E as perdições humanas e suas cadeias
E as cordas dos instrumentos e as flores –

Este homem
Estará para sempre condenado, não existe caminho
Por onde lhe escape o destino
E que o proteja das profecias –

Talvez alguém lhes diga
Quem era este homem.

II

E o outro deus disse:

Este homem está salvo
Porque foi tão esmagado
E tão repleto e consciente
Dos sons, das tristezas, do fogo, das condenações e das mágicas
(Como o funeral de um anjo)
Que ele irá conquistar –
E fará explodir
Todos os trompetes, tambores, peias,
Destinos e profecias,
Que será salvo
Como os fios de ouro
Que costuram o céu
E tecem as flores
E os sonhos da terra,
Como foi prometido
A cada um dos homens.

Algum dia
Talvez alguém
Venha lhes dizer.

III

Agora eu lhes revelarei:

Este era o seu segredo, como uma herança – e ele nada jamais revelou sobre isto. Em voz alta: escapar é fugir. Algumas vezes, ficar é também um esforço humano para continuar fugindo. Ele conhecia bem o inferno e ainda os seus segredos. Jamais sonhou com a salvação enquanto esteve condenado. Tentou perceber todos os seres humanos e dissecar a saga da humanidade. Percorreu todas as florestas de sua infância, andou por dentro das árvores, n coração das flores, no mistério das abelhas. Aliás, sempre lhe fascinaram os mistérios e as magias. Mas, veja bem, nunca preocupado ou imaginando o que  fosse a salvação porque ele tinha consciência de que nenhum ser humano merece salvar-se. Nenhuma carne merece salvar-se. Nenhum espírito pode ser salvo – a mente humana não aprende a salvação. Nenhum destino foi preparado para a salvação. Porque salvação, desde que é um conceito sobrenatural, está além da carne e do espírito, os quais de certa forma iguais a ela, também são ficções humanas. Conheci este homem profundamente. E agora posso informar-lhes: ele sempre tentou. Qualquer coisa poderia acontecer: não lhe interessava. Conscientemente. O que viu o tempo todo foi exatamente o que ele disse e no que sempre acreditou: nada. Desde que nasceu por algum inexplicável acidente ou milagre, como, aliás, todos os de sua espécie, ele não compreende. Tudo que existe são apenas palavras – e nenhuma palavra faz sentido quando se trata da vida real. A salvação não é um objetivo da vida, porque a vida, quando se inicia, já está de todos perdida. E isso, este homem sabia. Não o atormentava salvar-se ou ser condenado. Mas a morte.

Isto eu devo lhes dizer.

Rio, 20 março, 96 – Álvares PachecoSolstício de Inverno

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A VIDA NÃO É NADA DO QUE EU PENSAVA.

Ernst Ludwig Kirchner, Artistin Marzella


Hoje vivi um pouco
Talvez uns
Segundos
Coisa de façanha

Foi mérito alheio
Trazido à boca

Nada que alarmasse
Os vizinhos

Apenas
Pouco

...

Como lavar e etc.

Por que razão
Fazemos perguntas
Quando já temos a
Resposta mais que escrita
E triturada
Na cabeça e
No corpo?

Repetir o que sabemos
Mas não queremos
Talvez seja forma
De limpeza
Coisa de roupa suja
Que precisa de
Quarar ao sol
Para só assim
Desaparecer

Porque para sumir
Mesmo
É preciso morrer
Como morrem
Os indigentes
Sem deixar lástimas,
Ou nome no
Cemitério

Quero que a
Minha dor
Acabe assim
Sem corpo

...

A vida não é nada
Nada
Do que eu pensava

Imaginava uma vista
Do Arizona
Seca e bela
Larga até o fim do
Mundo
Onde tudo existia
Pelo meu gosto
Ou tristeza

Pedi areia sem água
Veio amor sem remédio
E coisas de permanência
Sem tempo e sem memória

Pensei, então,
Em rolar mil anos
Por essa ribanceira e
Um dia
Acordar e
Abraçar
Você

Dora Ribeiro