segunda-feira, 29 de setembro de 2014

MÚMIA NENÉM.

A dinâmica do mundo é o terror. Somos nós, com o cérebro humano, que revestimos, reduzimos o terror a uma contemplação palatável. Para assim tornar a vida e sua abjeção intrínseca e assassina – possível. A crueldade é a colmeia onde habitamos. E a substância de nossos pensamentos, ou seja, (as palavras) o mel que a reveste – tudo ao inverso.  Tudo está exposto. A crueldade do amor – maquiada. O sexo de carnes e secreções (quase um esporro laboratorial) – desejado. O nascimento – o grito do ar incendiando o corpo – porque é com o grito humano que se celebra esta tragédia em direção ao aniquilamento. Nascemos crucificados no mundo.  Para os sábios a fórmula mágica de sobrevivência é aparentemente simples, mas exige convicção e treino:
Mentiras afirmativas.
Primeiro: recusar a ideia do suicídio. Depois alimentar a indiferença a tudo e a todas as coisas – como se existisse um plano, um destino imutável que nos comanda. Por último; usar a imaginação tal qual um mantra que te convença diariamente de tudo isso – a esta entrega ao inevitável. Ao alienígena devorador – o Tempo.
O mistério da sobrevivência não é a verdade. Não são os fatos. É se enganar.  Porque a dinâmica do mundo é o terror.
Eis um planeta onde a verdade nunca existiu.

Terra: Gárgula Azul – Jorge Cardoso
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Louco. É a palavra que vez ou outra leio em comentários de post no blog do Jorge Cardoso. Quando leio os textos dele pra alguém, geralmente é o que escuto também. “Esse cara é bem louco, heim?” Não, não é dessa forma que vejo Jorge Cardoso. Na verdade o vejo como um homem são. Vejo Jorge como um são no meio do caos, um home são no meio de nós. Aí sim, loucos. Embora ele trabalhe muito com a loucura, e trabalhe bem suas histórias com esse elemento, ele não é um louco. O vejo sim como um home que traz uma verdade. E como isso não existe; a verdade. Ele traz a verdade dele para nós.

A literatura de Jorge Cardoso me chega como um homem que fez a passagem, encontrou outra esfera, entregou-se ao desconhecido, e foi aceito por ele. A literatura de Cardoso, pra mim é como de um possesso, um endemoniado. E eu gosto disso.

Com mais contos endemoniados chegou Jorge agora, com seu “Múmia Neném”, livro que foi lançado recentemente pela Editora Bartlebee. O livro infelizmente ainda não chegou às lojas dessa cidade que habito e só por isso ainda não o li, mas está sendo vendido na loja da editora. Quem nunca leu Jorge Cardoso, leia. Seus contos, sua linguagem rápida e certeira que trabalha com o tutano da literatura é algo que deve ser lido. A forma que ele trabalha a crueldade nossa humana, deve ser lida. Cardoso tem o poder de abrir nossos olhos para muita coisa, deste plano, e do outro também, e isso é algo louvável.

No Blade Santa, ele tem postado alguns de seus contos e textos pessoas.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

TWEEDY LIVE.


Eu já escrevi aqui sobre Jeff Tweedy e sua nova banda; Tweedy, projeto que ele criou com seu filho Spencer. O disco "Sukiaerae" foi anunciado meses atrás, e com o passar do tempo faixas dele foram sendo espertamente soltas na internet. Eu ficava ouvindo e me maravilhando com o trabalho novo de Jeff, mas ficava naquela ansiedade de ter o disco todo pra ouvir, entrava quase que todo dia em sites pra ver se já tinha caído na internet, essa nova loja de discos de graça. Dia 19 deste mês de setembro o New Music Releases disponibilizou o disco pra download. Foi um presente de aniversário pra mim, e de lá pra cá ouço pelo menos uma vez por dia o arquivo. Ouvir Jeff em um novo projeto, meio que distanciando do que ele faz no Wilco é algo diferente, uma nova experiência em ouvi-lo. Coisa sempre boa. 

Neste período em que o disco esperava para ser lançado, Jeff e sua nova banda foram fazendo shows de pré-lançamento, e ontem um deles foi transmitido no youtube ao vivo direto de Nova york. E lá se foi eu, claro, assistir o show. Posto aqui pra vocês, quem tiver interesse em ouvir esse novo projeto de Tweedy, ao vivo. Não sei se o show fica muito tempo na internet, as vezes eles tiram dias depois que aconteceu, as vezes não. Mas vale a pena dar uma conferida. Jeff está animado, as canções novas estão muito boas e o show é dividido em duas partes, nos primeiro 56 minutos tocam o projeto novo, depois Jeff fica só e toca músicas do Wilco e outras composições.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

BEAUTIFUL LADY.


Conheci o trabalho da cantora Jenn Grant por acaso, assistindo algum vídeo no youtube, e então apareceu link de uma música sua. Cliquei para ver/ouvir e segundos depois já tinha a certeza de que eu tinha que ouvir algo inteiro dela. Foi então que veio o disco “The Beautiful Wild” (2012), que tocou muito por aqui. Tocou tanto que chegou a marcar a época em que o ouvia. E hoje, quando o escuto novamente, me pego lembrando de ruas que andei, coisas que eu pensava, desejos sobre a vida que eu sentia na época.


Jenn Grant tem uma historia com a música um tanto interessante. Ela começou a tocar na época da adolescência, mas de repente começou a sofrer de um tipo de fobia para apresentar-se ao vivo, então parou de tocar e só voltou a fazer apresentações quase 20 anos depois. Jenn tem uma voz muito delicada e bonita de ouvir, suas canções vêm de um folk pop agradabilíssimo. Sempre tenho a sensação que quem começa a ouvi-la, simplesmente não vai conseguir parar. É o que eu sinto quando a escuto.





Nesse ano a cantora chegou com trabalho novo, o Ep “Clairvoyant”. Ep com cara de disco. As canções estão mais uma vez muito inspiradas. Grant traz nesse ep uma versão voz e piano para “I've Got Your Fire”, uma das belas músicas de seu disco “The Beautiful Wild”, e entre outras composições novas, Jenn traz um cover maravilhoso de “Lover Lover Lover” do cantor Leonard Cohen. Essa canção inclusive parece ser de outro projeto que a cantora está envolvida com versões de Leonard chamado “Aqua Alta”.




A linda loirinha de olhos verdes e voz de pássaro ainda é muito desconhecida pelo grande público, o que é uma pena, Jenn Grant é uma cantora de personalidade própria, com um som muito autoral, suas canções são sempre muito inspiradas e suas letras e melodias são sempre muito boas. Quem sabe com o tempo, Grant caia mais nos ouvidos de mais gente. Ou quem sabe ela será sempre uma cantora de público pequeno, seleto, que sabe o que é bom de ouvir.

Para ouvir on line o Ep Clairvoyant; aqui, e para fazer download; aqui.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

MORE ONE.



I was born at half past twelve, almost one in the morning
I was born at half past one, almost two in the morning
Now my birthday comes again, I don't know how old I am
Half past one or two or three, almost four in the morning

I was born at half past four, almost five in the morning
I was born at half past six, almost seven in the morning
How old am I, you ask of me? One year younger than I used to be
Half past seven, half past eight, half past nine in the morning

I was born at half past nine, almost ten in the morning
I was born at half past ten, almost eleven in the morning
Today my age is tweedle and twee, I'm prettier than I used to be
Half past eleven, half past eleven, almost twelve in the morning
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Natalie Merchant, Billy Bragg, Wilco e Woody Guthrie. Qual idade eu tenho hoje? Um ano a mais do que eu costumava ter. Mais um.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O MÍMICO.


O que faz com que um ser queira se tornar eterno? Qual medo interno de esquecimento terreno carrega dentro de si lutando tão fortemente para não passar por este mundo despercebido quando sua hora final chegar? Que necessidade é essa de transformar a hora final em um ponto de começo?

Enrique Vila-Matas diz que: “Todos desejamos resgatar por intermédio da memória cada fragmento de vida que subitamente nos volta, por mais indigno, por mais doloroso que seja. E a única maneira de fazê-lo é fixá-lo com a escrita. A literatura, por mais que nos apaixone negá-la, permite resgatar do esquecimento tudo isso sobre o que o olhar contemporâneo, cada dia mais imoral, pretende deslizar com a mais absoluta indiferença”.

Talvez possa ser isso que levou um homem chamado Vidiadhar Surajprasad Naipaul a escrever. Talvez. Mas só pode-se dizer talvez, porque os mistérios que este homem que se tornou de alguns anos para cá, um de meus escritores prediletos, são muitos. Gigantes e inimagináveis mistérios. E talvez por saber que seja assim, ele mesmo se disponibiliza a ser um “desvendador” dos mistérios do homem. Os mistérios e segredos que carregamos dentro de nós diariamente, fingindo sorriso e pensando que ninguém seria capaz de descobrir, quando basta somente um olhar para que alguém descubra o que tão sigilosamente carregamos dentro de nós. Naipaul é um desses homens que carregam um olhar possível de desvendar os mistérios, um olhar de um condenado até o final da vida, que consegue ver o desvalido, o humilhado, o oprimimido, e é capaz de lançar uma frase como “Odeiem a opressão, mas temam os oprimidos.”, na frase que tão bem poderia ser usada para descrever as obras de Michael Haneke, quanto para descrever qualquer um de nós. E ainda assim, criando uma frase dessas, não romantiza a perca.

Filho de imigrantes indianos, Vidiadhar Surajprasad Naipaul se tornou V. S. Naipaul, um dos, que se pode dizer sem medo, grandes romancistas dos tempos atuais. Naipaul foi morar na Inglaterra ainda adolescente e dizem, dês de 1954 a única profissão da qual se dedicou realmente foi a escrita. E aí está um homem no meio de tantos ditos escritores, aí está um homem que pode dizer que é realmente um escritor. E mesmo que não ganhasse a vida com o dinheiro de seus livros - coisa muito comum no meio literário, mesmo assim aí está um homem que pode dizer que é realmente um escritor.

Escrevendo sobre o fim dos sonhos, homens inacabados que constroem civilizações que sempre serão inacabadas, Naipaul escreve sobre o homem aflito e angustiado, humilhado pela própria condição de ter nascido para não ser aquilo que todos esperam que sejam. Naipaul escreve sobre a própria humilhação, sem criar romantismos nem muito menos heroísmos. Nos textos de Naipaul não existe espaço para um herói, e isso é louvável em um mundo criado por figuras idiotas que devem servir de exemplo para outras pessoas idiotas. Assim como disse Fernando Moreira Salles: “Para Naipaul não há um Admirável Mundo Novo despertando das cinzas do colonialismo. As marcas da dominação deixaram feridas abertas na consciência, nas vontades, na determinação de reencontrar uma identidade.” E é sobre um homem que tenta recriar sua identidade, uma identidade talvez nunca encontrada por ter sempre nascida perdida, que Naipaul constrói um personagem que talvez seja ele próprio, ou cada um de nós, vivendo em um mundo estranho, em uma sociedade estranha, dentro de relações estranhas, sempre rodeado de pessoas que sempre serão estranhas.

Os Mímicos”, romance escrito entre agosto de 1964 e julho de 1966 e publicado em 1967, traz a estória de um homem que poderia ser descrito como “sem nome”, e suas reflexões sobre o outro, sobre a incapacidade de ser compreendido e compreender o outro quando se propõe a escrever a história da própria vida. Um homem e suas mazelas naturais, falhas, perdas, e vazios, mas que nem em um momento é narrado como coisa gratuita. É simplesmente narrado, contado a estória de um perdido tentando encontrar na fuga de sua terra de origem, a fuga de sua nacionalidade, a fuga de sua condição de filho, irmão, amigo ou o que mais estiver acoplado a um ser. E é a partir disso que revela seu olhar do mundo para o mundo. Esse olhar talvez seja o do próprio Naipaul. Mas somente pode ser dito que talvez seja, porque como já disse, muitos são os mistérios que o escritor contém, mesmo que em seu trabalho ele se disponha a desvendar o que for possível, e guardando outra parte que possa ser importante para sua formação.

Meu prazer em reler este livro descoberto e lido anos atrás foi bem maior que a primeira vez que o li. Mesmo tendo sido um livro relido praticamente todo dentro de ônibus barulhentos e lotados onde além de ter que lutar contra os barulhos, tinha que lutar contra o sono matinal que me acompanha o dia inteiro, mesmo assim, o espanto em que me encontrei em “Os Mímicos” foi bem maior do que a primeira vez que o li. E penso que este livro seja um daqueles que daqui a 20 anos, ou mais tempo, ainda me criará espanto e surpresa e prazer quando reler suas frases.

Em Isabella, quando jovem, eu falava sobre cultura e sobre a necessidade de se criar uma literatura nacional, tanto quanto qualquer um. Mas, para falar com fraqueza, não sentia admiração pelos escritores enquanto pessoas, por mais que admirasse suas obras. Eu os considerava pessoas incompletas, para quem o ato de escrever substituía aquilo que, na época, eu me comprazia em chamar “vida.

Os Mímicos – The Mimic Men
Tradução: Paulo Henrique Britto
Editora: Companhia das Letras

319 páginas