segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O BRANCO.



Segurava canetas com a mão direita,
Tinha mania de sempre ocupar a esquerda com qualquer outra coisa.
Fingia ler livro de trás para frente,
Mas na verdade só gostava de ver as figuras.
(Sofreu muito quando ainda pequeno
O professor lhe deu um livro sem gravuras.
Trauma grande, cinco anos sem ler ou pegar em livro algum)
Considerava-se o mais diferente dos seres.
Mais comum impossível.
Pensava ser o mais estranho dos homens,
Se não, chegava bem perto.
Sonhava em ser grande,
Mas se incomodava com o fato de descender de família de baixa estatura.
Guardava as melhores roupas para ocasiões especiais,
Mas como nunca era convidado para festas ou algo do tipo
(Se convidar? jamais, muita falta de educação)
As roupas acabavam ficando velhas, saindo de moda.
Incomodado com os vizinhos pensou em mudar de casa,
Bairro,
E até cogitou sair da cidade,
Mas devido ao trabalho que teria com a mudança
Preferiu continuar onde morava.
Faz meses que não o vejo,
Mas sei que quando reencontrá-lo
Será aquela mesma coisa
Mesma conversa,
Nem vale relatar.
Comprava jornais e revistas
Mas dizia não ler
Por medo de saber o que estaria acontecendo de ruim no mundo.
Sentia-se sempre perdido
Mas uma coisa que fazia com facilidade
Era encontrar-se no mapa.

26/05/2006 07:10


domingo, 21 de outubro de 2012

O Gladiador.


Que pedaços recolher
De um domingo solípso?

A tarde que se decompõe
Ainda se equilibra nos arames.

O mar não revelou aos homens
Seu interminável recomeço.

Quem me ameaça no espelho
É o outro que desconheço.

Carlos Algusto Viana - A Báscula do Desejo

sábado, 6 de outubro de 2012

HOJE É SÁBADO.

Sábado

Hoje é sábado; não, eu é que estou sábado. Organizo o domingo assim a cozinheira o seu bolo de nozes: aparo o cabelo, engraxo o sapato, escolho a gravata de bolinha. Pouca gente na rua, os plátanos enfeitam-se da conversa de pardais.

Meninas já brincam, vestidinho branco no portão. Debruçado no livro de capa preta diz o escriturário com o lápis no ar: não te gastes, amanhã é domingo. Os cães conspiram na esquina: se amanhã é domingo, tem osso de galinha.

Solteirona descansa o cotovelo na janela: ai, tomara não chova domingo. Um gordo antegoza o domingo no prato fundo de macarrão. A amada não veio, João? Amanhã domingo estará na missa.

Alma de artista, domingo você rabisca o retrato  da menina, fita azul no cabelo, mãe e filha chateadas. Noivo, a sambiquira é com vinho na casa da sogra.  Dor de dente? Que dia desgraçado: o dentista não atende domingo.

Se você morre no sábado mais depressa esquecido.

Eis o domingo e, como todo domingo, um dia perdido - amanhã é segunda-feira.


Dalton Trevisan - Quem Tem Medo de Vampiro?