sexta-feira, 25 de novembro de 2011

HOMEM DE MUITAS VIDAS.


Um jovem que tinha muito a dizer com seu violão. Era 1962 quando Bob Dylan (nascido em Minnesota como Robert Allen Zimmerman) lançou seu primeiro disco, onde sem banda alguma, Dylan cantava seu Folk Blues apenas com seu violão e gaita. Talvez na época não imaginassem que o jovem que lançava um disco com apenas duas músicas próprias ("Song to Woody” e “Talkin' New York”) se tornaria um dos grandes cantores e melhores compositores da América, escolhido em 2004 pela revista Rolling Stone, como o 2º melhor artista de todos os tempos, ficando atrás somente dos Beatles. Sim, o jovem tinha muito a dizer, e o fez, e continua até os dias atuais graças aos deuses, e é triste pensar que um dia irá parar de fazer isso. Bob Dylan teve muitas vidas, e neste seu disco de estreia estava apenas começando uma delas.
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Aqui Dylan em 1963 cantando “Man of Constant Sorrow”, talvez a música mais bonita de seu disco de estreia.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

ABISMOS.

Diego Moraes soltou um link e disse; “A escritora mais barra pesada da internet.” Se referindo à escritora Camila Fraga. Então eu fui ver, queria ler isso. Me conectei ao blog e encontrei:
Vou devorar o diabo e deixá-lo em carne viva.
abrir os portões do inferno
e injetar adrenalina pra não dormir.
o mundo me faz mal,
mal pra caralho.

Pensei, é, é barra pesada mesmo. Passei a barra e encontrei mais

Amar é foda

na cama dele o
cheiro de outras bucetas
na minha o meu cheiro
essa eterna solidão
um jazz ligado no rádio baixinho
tento não pensar em porra
nenhuma
acendo um cigarro no banho
e deixo as cinzas caindo
em meus pés
na cama dele o
cheiro de outras mulheres
o cheiro delas talvez nunca
saia.
eu ainda ligo um tanto
pra isso
eu ainda me importo
que eu não seja a única
eu sempre vou
me importar.


Realmente, Camila Fraga se mostrou umas das escritoras mais barra pesada, perigosa que encontrei na internet nestes últimos tempos, sua poesia vai do delicado e forte ao falar das desilusões dos dias e das solidões nossas de quase todas as horas, ao violento necessário falando da falta de bons olhos a enxergar este mundo cão em que vivemos. Em seu blog, Camila tem colocado uma porção te textos daqueles que você solta um suspiro por ter encontrado boa literatura enquanto está lendo. Coisas que batem no fundo da alma guardada em cantos escuros do corpo. Textos poderosos e certeiros com os quais tenho me identificado fortemente. Camila escreve com uma violência poderosa sobre seus abismos internos, como se jogasse sangue na tela do computador enquanto posta seus textos. Camila escreve com um sangue marejado à cigarros e uísque em seus poemas, e isso é bom de ver, bom de ler uma escritora sem firulas mandando uma boa literatura hoje em dia. E difícil não se identificar.

a maioria das noites eu durmo às quatro da manhã. ou até mesmo lá pelas seis, quando o dia quase diz que vai amanhecer, mas a porra do sol nunca desce antes das oito e meia da manhã. tenho tido problemas com a droga do sono. fico pensando em merda antes de dormir. eu trouxe uns livros comigo, a maioria eu já li e depois perdi o saco de ler qualquer coisa. tenho escrito pouco. uns poemas ruins pra diabo que às vezes eu digito antes de tentar pegar no sono, lá pelas 4. eu deito e fico tossindo pra valer. essa tosse nunca vai passar. tô há quase 3 semanas com ela. é a minha única companheira. perdi o cabo do meu mp3, não sei como tô conseguindo sobreviver sem abstrair do mundo. é uma merda entender todas as conversas em espanhol. todo mundo conversa sobre as mesmas merdas, num importa o país. às vezes sinto vontade de comprar uma vitrola e ficar horas ouvindo uns punks espanhóis bem fudidos, mas não tenho dinheiro. só resta sentar nesse sofá fedorento da sala, ligar a tv e assistir friends e two and a half man em espanhol e comer um miojo frio que deixei na geladeira de ontem.
 Este e outros textos de Camila, lá no blog da garota.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

LUZ.


Acordou no meio da noite e percebeu que um ser luminoso estava ao seu lado, um ser nunca visto por ela antes, que expandia uma luz confortante. Estranhamente não se assustou, mas pensou que por causa da luz expandida não conseguiria voltar a dormir. A luz por sua vez era um tipo de energia tão confortável, que logo adormeceu e dormiu o sono daqueles que merecem, acordando no dia seguinte revigorada e muito mais alegre.

Muitas de suas colegas de trabalho a perguntavam o segredo de tanto bom humor e disposição, cogitando até algum romance, mas ela com um sorriso apenas, guardava para si o segredo noturno.

Assim foi durante meses, acordava no meio da noite com a estranha luminosidade, percebendo que o ser expandia cada vez mais luz ao seu lado na cama, e logo voltava a dormir tranqüila.

Mas depois de meses acontecendo isso, numa noite acordou como de costume e notou que nenhum ser estava ao seu lado, só a escuridão tinha voltado a lhe fazer companhia. Nenhuma luz a seu lado existia.

Hoje, não conseguindo mais dormir no escuro (todas as luzes da casa ligadas), vive perturbada com uma crise crônica de insônia.

31/08/05 – 01:42

sábado, 12 de novembro de 2011

SUBURBAN NATURE.


Sarah Jaffe é uma loirinha linda de olhos verdes matadores vinda de Denton, Texas. Lançou seu primeiro Ep em 2008 e em 2010 lançou “Suburban Nature”, disco com 14 canções produzido por John Congleton, que já produziu artistas como Explosions in the Sky.



Com uma levada folk, Sarah manda músicas calmas, melancólicas, e algumas com certo tom dramático, mas todas boas de ouvir. “Suburban Nature” já te ganha na primeira faixa com uma pegada bem boa "Before You Go". "Stay With Me" é aquela música calma, com uma construção interessante que fica na sua cabeça depois de ouvir, assim como "Clementine". Depois daí, pode-se dIzer que o disco já te ganhou, e continuar ouvindo é fácil, fáci


Pra ouvir “Suburban Nature” aqui ó.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

SEREIAS DE BENGALA.

A história da humanidade não é a história de um tremendo equívoco. Fazemos o melhor que podemos. São poucos os que podem amar, dividir, compartilhar sabedoria e bens materiais. Mas isso não quer dizer que os que não conseguem fazer isso, as chamadas virtudes, estejam errados. Eles simplesmente não conseguem.



Certa vez a minha criatividade me deixou. Deitado na banheira cheia d’água, eu via as minhas pernas. Massas de carne e pêlo envelhecidas e maceradas pela espuma. Então eu tive uma idéia. Me penteei. Pus um terno, enlacei os sapatos e fui para a esquina de uma igreja. Eu esperava as pessoas saírem e… Não, não era aleatório. Sabe quando você vai a uma lanchonete e olha a lista? O que você quer comer já está decidido minutos antes de você entrar na lanchonete. A tabela apenas funciona como a bacia de Nostradamus, uma carta astral. Eu escolhia as pessoas assim, mas elas tinham um perfil, ou possuíam um tipo de composição. Depois, eu seguia a pessoa uns três dias. Era tão bom nisso que eu parecia um balão.


Quando eu não dependia de dinheiro para escrever, as idéias fluíam com facilidade. Passava a maior parte do tempo deitado, lendo ou assistindo TV. Eu tinha tempo, ou melhor, eu não tinha preocupações – eu criava quando queria, estados de tensão criativa – milimetricamente controlados e limpos. Mais tarde, existiria o aluguel para pagar, as mil contas, o divórcio, a criança insatisfeita, o trabalho desgastante cujo prêmio seria o sono de vinte e cinco dias. Não conseguia mais escrever. O bloqueio vinha não de dentro, mas de fora. Este tipo de ambiente não proporcionava um solo fértil para as idéias. Um centelha surgia e logo se apagava, tudo morria de forma leitosa, não aparecendo bem no papel – uma droga. Então decidi que se as idéias não surgiam de dentro surgiriam de fora, seriam fisgadas no mundo. Funcionou. Provocava a criatividade com os assaltos a mocinhas indefesas, a coroas robustas, todas aquelas abordadas no meio do caminho e pelas encostas das seis e meia. Lencinho. Luvas, sapato bem amarrado.


Não existe nada no universo que não seja um grito. O universo está em grito. Apenas feche os olhos. Estados de grito. Dá pra escutar. O barulho da água cozinhando é um grito abafado, o da criança nascendo um grito aberto, o dos homens trepando e o da máquina embolada entre fios. Os pássaros não cantam, eles gritam; quem inventou o canto dos pássaros foram os pintores.


Se eu continuo a escrever como antes? Tem gente que diz que eu não tenho mais a mesma pegada. Mas o passado não está localizado no tempo e sim no evento. Eu ainda sou o antes. De qualquer forma descobri de uma vez por todas o que realmente me fez vir ao mundo: descriar para criar melhor, mesmo que não seja eu, a frase: Um dia isso acaba.

Jorge Cardoso

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Jorge Cardoso nasceu no Rio de Janeiro, vive em Umeã na Suécia há um tempo que não sei dizer, trabalha nos correios, escreve. Como escritor, descria o que já existe para recriá-lo de uma forma diferente, como quem destrói uma obra para recriá-la de sua própria forma. E a obra que Jorge Cardoso usa para sua desconstrução criativa é a vida, um tipo de cotidiano, e a partir daí ele cria seu mundo, um outro mundo criado por palavras provocadas da criatividade que vem de fora para dentro. Jorge Cardoso retira do que vê para recriar em seu papel o que quer ver, o que gostaria, ou o que não tem vontade. Sereias de Bengala, sua mais recente obra, é um livro que assusta. Não só pela forma em que foi escrito, mais também pela fantasmagoria que permeia todos os contos cortantes de frases por vezes rápidas e retidas. Resolvi ler o livro depois que li este prefácio matador aí em cima que Jorge escreveu, e não consegui parar. Difícil sair ileso dos contos de Cardoso, difícil não se identificar com alguns contos. Como em “Orace”, a estória de um rapaz talvez perdido demais em sua própria indiferença para com os outros. Ou em “Os Últimos”, a estória de um menino que tem pôr único vício a vontade; - “Há uma febre em todo mundo – uma esperança de se transformar em outra coisa. De viver uma outra vida e nascer de novo. O suplício da fé é bem maior que isso – o suplício maior é quando condenas e não libertas. a falta que o cigarro faz aos homens não faz a mim porque ainda sou muito jovem. Não conheço outro vício que não seja apenas vontade.” – Descria Cardoso no conto. É Difícil não se ver em algo disso, é difícil nos dias de hoje não me ver no conto “Desmaios”, a estória de um menino que tem a alma invertida, como se fosse uma queimadura ao contrario. E outros contos já parecem roteiros de filme para um David Lynch rodar, como em “Inesperando”.

O livro de Jorge Cardoso foi lançado pela Editora Baleia de graça na internet. Para baixar – o que eu indico muito – e conferir tudo na integra, é só vir aqui.