segunda-feira, 31 de maio de 2010

O MUNDO ESTRANHO DE UM HOMEM SÉRIO.

O professor de física Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg)começa a ver sua vida tumultuada de problemas depois de receber de sua esposa um pedido de divórcio. Na verdade não um pedido, mas um aviso de uma esposa calma e tranqüila dizendo que está tendo um caso com um conhecido e que quer o divorcio para poder se casar. Mais ou menos a partir disso o professor começa a se dar conta da vida que tem levado. Dá-se conta do filho distante que só se importa em fumar maconha entre uma aula chata e outra e assistir programas de televisão, e que só o procura para que ele ajeite a antena da televisão. Da filha que só pensa em lavar os cabelos para poder sair, e do parente doente que passa o dia inteiro dentro do banheiro drenando um cisto ou algo do tipo que tem no pescoço. O professor de física a partir dos acontecimentos ruins que se apresentam começa a se questionar sobre a própria vida, e busca respostas para suas perguntas dentro de salas de advogados rabinos – ou rabinos advogados, que não lhe dão resposta alguma, somente mais contas para pagar.
Um Homem Sério”, novo filme dos irmãos Joel e Ethan Coen talvez fale do pão frio de cada dia. Através de um roteiro que pode parecer à primeira vista um tanto solto, contam um espaço de tempo na vida de um homem. Um espaço de tempo de uma vida que segue, e de um homem que segue à risca seus preceitos, sua religião, seu trabalho e tem uma vida comum. Uma vida comum a qualquer um de nós. Uma vida que tantos medrosos têm medo de ter como se algo que seja comum signifique algo ruim, ou desprezível. O professor tem o mesmo acordar cedo, o mesmo ir para o trabalho desgastante, e a mesma volta para a família estranha de sempre, e as dezenas de contas para pagar todo santo dia.
Através de uma história que me sinto mal em resenhar tão mal, por que o filme não é só isso, os irmãos Coen vão bem mais à fundo contando a vida de um homem comum e suas percas diárias, em uma narrativa precisa e bem feita, em um longa que me chegou como o filme mais estranho da dupla que assisti até hoje. Nem “Barton Fink” com seus “Delírios de Hollywood” que pode ser descrito como filme de realismo bem fantástico me trouxeram tanto estranhamento enquanto assistia quanto à “Um Homem Sério”.
Talvez tenha sido a falta de violência que é, - ou pode se dizer que foi, tão comum aos filmes dos irmãos Coen, talvez tenha sido o andamento do filme onde não se consegue ver um início, nem um fim bem predeterminado, mas sim uma estória contada sobre uma estória que segue, sobre um espaço de tempo na vida de um homem comum, e sério. Talvez possa ser isso que me trouxe algum estranhamento, mas não saberia dizer. O fato, é que Ethan e Joel Coen ainda se seguram como dois nomes no cinema atual americano que realizam um cinema que vale a pena ser visto.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

ONDE VIVE A SOLIDÃO.

Max é um garoto ativo e solitário. Corre pela casa perseguindo o cachorro, cria igloos na neve do lado de fora da casa, e se sente sozinho. Sua irmã mais velha prefere as conversas com os amigos adolescentes, sua mãe passa o dia no trabalho e enquanto está em casa tenta encontrar tempo entre se preocupar em não perder o trabalho, fazer as coisas de casa e cuidar dos filhos. Ela pede que ele lhe conte uma história à noite quando se sente perdida. Mas ainda assim Max se sente sozinho. Para fugir disso, cria um mundo de fantasias. Uma pilha de neve do lado de fora da casa que se torna em um igloo, a cerca que se torna em um soldado, uma cabana feita de lençóis dentro do quarto que se torna em esconderijo, ou nave espacial prestes a decolar, e ele quer dividir isso, mas os mais velhos têm muitas outras coisas para se preocupar; a vida de gente grande.
Em dado momento Max briga com a mãe. “Você está descontrolado.” Ela diz para o menino. “Não é minha culpa.” Ele responde antes de fugir de casa. Não é culpa do garoto, solidão em excesso pode gerar em um ser comportamentos estranhos e perigosos. E é a partir da fuga de casa que Max encontra um outro mundo, com outros personagens não vistos na vida dos adultos. E mesmo neste mundo tendo sido coroado rei, Max descobre que problemas nunca terminam realmente, onde quer que você esteja.
Onde Vivem Os Monstros”, novo filme dirigido por Spike Jonze fala sobre beleza e solidão. O quanto à solidão pontuada no nosso dia a dia pode se tornar algo perigoso com o tempo que passa. Jonze penetra no mundo mágico, onírico e fantasioso que é o da criança, e cria uma obra bela, intensa, por vezes calma e selvagem pontuada por uma maravilhosa trilha sonora assinada por Karen O, e acima de tudo, sensível e emocionante para pequenos e adultos.
“Onde Vivem Os Monstros” já é um de meus filmes prediletos de 2010. A única coisa que não consegui descobrir é como um filme tão bom, só chegou nesta cidade com tanto tempo de atraso e em apenas sessão de arte. Mas isso, é questão difícil de mais para entender. Isso, é coisa de gente grande.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

ALICE EM UM PAÍS DUBLADO.

Não vi tanta falação da mídia por um filme dês de "Avatar" no ano passado (Que é claro que vi nos cinemas - gosto de um bom show, mesmo que este mostre o que já é o mesmo) quanto como para Alice no País das Maravilhas, novo filme de Tim Burton.

É claro que dês do ano passado também estava esperando o filme estrear para ver o que Burton fez com a personagem de Lewis Carrol. Pra mim, ele seria o cara para colocar nas telas os personagens estranhos do escritor. Burton gosta de personagens estranhos, mundo onírico, fantasia.

Cara, tô pensando em tomar um doce para assistir o filme em 3D.” Me disse um amigo. É, eu também queria ter visto o filme em 3D, queria ter visto pelo menos o filme legendado no cinema. Mas incrivelmente só chegaram cópias legendadas em duas salas de cinema desta cidade. Vai entender o porque das pessoas! E o jeito foi assistir Alice no País das Maravilhas dublado com jeitão de sessão da tarde dentro do cinema.

terça-feira, 4 de maio de 2010

A MARCA DA PUREZA.

Personagens reprimidos e repressores. É mais ou menos isso que vejo nas obras de Michael Haneke. Foi isso que vi em “A professora de Piano” (disgusting movie) e em “Cachê”. Um mundo de segredos, o homem e seus segredos. Seus assassinatos noturnos, seus sonhos não concluídos, seus desejos mais agressivos e mais guardados. Medo. Personagens reprimidos. É mais ou menos isso que vejo nas obras do diretor Austriáco.
Não foi diferente em “A Fita Branca”, seu mais novo filme. Nele Haneke vai da trama pública para a privada. Para o drama de uma pequena sociedade, para o drama privado de seus habitantes, e para mais fundo, para os dramas internos das pessoas.
Haneke cria uma narrativa contando a história de um pequeno vilarejo no meio do nada da Alemanha, que começa a ter a suposta paz perturbada depois que alguns acontecimentos misteriosos. É depois que o médico da cidade sofre um sério acidente caindo de um cavalo que ficou preso em uma armadilha, que autoridades são chamadas para investigar. E então acontecimentos cada vez mais estranhos começam a surgir. Uma senhora que morre em um acidente de trabalho. Um seleiro que pega fogo misteriosamente na escuridão da noite. O filho do barão que é misteriosamente raptado e surrado violentamente. O filho do médico que é raptado e tem os olhos surrados e quase arrancados. Acontecimentos que depois se mostram como punição.
É dentro de acontecimentos como estes que Haneke entra nas vidas dos habitantes da aldeia e mostra suas vidas. Um pai que pune o filho por ele ter descoberto o próprio prazer, que por não confiar mais nos filhos envolve em seus braços uma fita branca para que eles possam carregar a cor da pureza em seus corpos, até que encontrem o mesmo dentro de si. Um pai que comete o suicídio porque não tem mais trabalho para colocar comida em casa para os filhos. O pai que à noite, enquanto o filho mais novo dorme, molesta a filha adolescente, e que durante o dia tem um caso com sua ajudante por quem sente tanto nojo, enquanto essa lhe guarda tanto afeto.
“A Fita Branca” fala da incompreensão do ser para com o outro. Da impunidade. Dos segredos guardados e dos revelados que ficam em silêncio. Haneke usa uma fotografia preta e branca chapada com muita pouca luminosidade, mostrando espaços vazios e escuros. Espaços vazios e escuros como os que guardamos dentro de nós. E silêncio, para falar do medo guardado.
A Fita Branca - Das Weisse Band
Origem: Austria, França, Alemanha e Itália
Direção e Roteiro: Michael Haneke
Duração: 144 min.