segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

LENTAMENTE.

eu tenho tantas mortes de perfil
que por isso não morro,
sou incapaz de fazê-lo
Pablo neruda

Eu não morrerei de uma vez só
Estou morrendo do dia em que nasci,
Em processo lento de morte
Do dia em que fui posto neste mundo.

Eu não morrerei de uma vez
Tenho sim uma agulha cravada no peito
Que não faz sangrar normalmente
Mas onde é hemorragia contínua.

Não morrerei assim rápido,
Morro diariamente
Como quem sorri
Como quem sente alguma alegria.

Eu morro devagar,
Lento,
E ainda assim renascendo diariamente.

Morrerei como quem nasce
Dolorosamente.

E vou espalhando meus pedaços
Pelos quatro cantos da cidade
Ruas e praças
Postes e barres
E quem me vê andando
Nada sabe da dor que falo.


25/02/2008 23:22

domingo, 4 de fevereiro de 2018

04/02/2018

Ontem, nesse mesmo horário, eu estava na casa do meu amigo. Sentados, tomando uma baldada, nós conversávamos sobre os rumos do mundo e da humanidade. Não era nada pretensioso, nós só estávamos tentando entender o que está acontecendo. E no nosso ponto de vista, o mundo vai mal. Mais já vai mal a muito tempo também. Só está piorando. Talvez nunca existiu um momento em nossas vidas em que existiu tanto medo social como está acontecendo agora. Gente cada vez com mais medo de gente. Uma das coisas que mais se falam hoje em dia é “Não confie em ninguém”. Um dos conselhos no momento é “Não saia de casa, se não for extremamente necessário”. Gente com medo de gente. Gente com medo de andar na rua e sofrer algum tipo de violência. Mas não foi sempre assim. 20 anos atrás, era natural ver pessoas sentadas em calçadas em muitos bairros da cidade até tarde da noite. 20 anos atrás era normal você andar em um bairro estranho, pedir água em alguma casa, e ser atendido. Hoje em dia, falávamos, isso não existe mais, acabou. Não existem mais pessoas interessadas em ajudar algum estranho. Nós conversávamos.

Hoje no final da tarde eu sai pra pedalar. Queria quebrar pros 15 km. Preparei uma trilha e saí. Mas no quarto km a corrente da bike começou a cair. Coloquei, mas ela caiu de novo. Resolvi voltar, parei em uma praça, coloquei a corrente mais uma vez. Pedalei mais um quarteirão e de novo caiu. Parei em outra praça e coloquei mais uma vez a corrente. Passou um cara forte carregando o filho. Coloquei a corrente e fiquei sentado fumando, pra relaxar. O cara volta com o filho e me pergunta se o pneu tinha furado. Falei pra ele da corrente. Ele olha, fala que um lance lá tá frouxo e solta; “Eu moro bem ali, quer ir lá, eu tenho a chave, aperto aí pra você”. E eu fui. Fomos descendo a rua e minha cabeça ficou pensando, e se esse cara me roubar. Se ele for fechado com a galera por aqui, e pegar minha bike, meu celular. É o pensamento que fica na nossa cabeça, desconfie de todo mundo. Do outro lado ele estava falando que já teve o pneu da bicicleta furado no meio do caminho e pediu ajuda numa oficina e não foi atendido, então aprendeu a fazer sozinho. “Macho, o cara não quis me ajudar, mas eu não me importo em ajudar quem eu vejo que tá com problema”. Chegamos na casa do cara, ele me mostra suas bicicletas, uma é muito pesada pra mim, nunca conseguiria andar com ela. Ele vem com a chave, aperta os parafusos. Vem com uma bomba, calibra os pneus. Me oferece água pra lavar as mãos e me fala como volto pra minha rota. Na despedida, solta; “Precisando é só voltar aqui”. E eu respondo, “Se minha corrente cair por aqui de novo, passo aqui na tua casa”. Me despeço e volto pra casa pedalando.

Diário de Bordo

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

CONTINUANDO.

A vida é um mistério curioso. A vida com todas as suas voltas e caminhos. O que me leva a lembrar que coisa de um pouco mais de um ano atrás, passava por um processo no qual eu julgava como falta de fé. Eu sabia que não era falta de fé, mas sim a falta da importância da fé pra mim. Eu só não queria mais. Tanto fazia. Mas não era isso, e eu sabia na época. O que eu ainda não sabia era que aquele processo era apenas eu me desligando inconsistentemente de quem eu era, para me tornar um outro, um outro que ainda viria, que ainda vem, mas que também já está aqui. Eu estava me desligando de algumas crenças que já não pareciam me vestir mais. E como sou uma pessoa dramática, precisava de um ato dramático também no momento. Então levei um ano para entender o que era aquilo. Algumas coisas ficam escondidas dentro da gente, para se mostrarem assim, repentinamente. E quase um ano depois, como um raio, como uma iluminação, eu entendi em como eu estava me transformando, e no que eu precisava me transformar ainda mais para conseguir o que eu sempre quis para minha vida. Liberdade e paz. Algumas coisas levam tempo, mas isso não tem a mínima importância quando você descobre que o tempo não existe. Passado e futuro. Quando você descobre que só existe o agora. E viver o agora é o que realmente importa. Tornando-se quem você realmente é.

Como muitos escolhem ver o tempo como um ciclo que se encerra e recomeça depois de 365 dias, como isso dá mais calma a muitos de nós, eu gostaria de começar este novo ciclo, deixando uma mensagem que vi recentemente. Uma mensagem da monja Coen, que tornou-se popular nos últimos tempos, dando entrevistas, falando sobre a iluminação. Pessoalmente eu acho massa ter pessoas que estão por aí mostrando boas mensagens, falando sobre a iluminação num mundo tão escuro para alguns. E então me veio a vontade de dividir com os amigos uma de suas mensagens.

sábado, 2 de dezembro de 2017

SPIDERS.


Crawlin black spider”
Cat Power

Uma aranha negra teceu 
teias metálicas sobre mim,
Teias prateadas sobre meus ossos,
E já não posso mais me mover.

Sob a mesa de cabeceira,
Um fantasmas bebe e sorri,
Um inimigo me sorrindo de leve,
Enquanto a aranha continua me cobrindo com suas teias,
Da cabeça aos pensamentos
E então já não posso mais movê-los.

04/04/2008 13:55


sábado, 18 de novembro de 2017

O HOMEM COM CABEÇA DE CACHORRO.

O homem com cabeça de cachorro nasceu de parto normal.
Homem, dois braços, duas pernas, corpo humano, e uma cabeça de cachorro.
Nasceu de pai e mãe normais.
Criado pelos pais, recém-nascido, receberam proposta para viver e trabalhar em circo. Nunca aceitaram. Somente quando os pais morreram que passou a comprar a própria comida, vendendo a imagem de sua cabeça de cachorro por alguns trocados nas feiras exibicionistas.
Sua voz poucos ouviram. Quando abria a boca na tentativa de expulsar som, alguns jogavam pedra, corriam de medo, e existiam os que desmaiavam. Assim, aprendeu a comunicar-se por gestos.
Nunca teve amigos. Sempre viveu sozinho. Nunca foi amado por mulher alguma que não fosse sua mãe.
Vivia sozinho no antigo casebre dos pais mortos. As crianças iam até lá jogar pedras nas janelas onde não haviam mais vidros, só panos servindo de cortina.
O homem com cabeça de cachorro morreu sozinho já passando dos 30 anos, sentado em uma poltrona, de frente para uma TV desligada.
24/11/11 03:10 - 03:18

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A TARDE.

Leões rugindo nas ruas
mulheres flutuando nas calçadas
homens espreitam.

3 meninos vestindo camisas de guerra
levam escrito no peito
exército de Deus
enquanto fazem malabares no sinal
para ganhar uns trocados.

Em algum lugar do mundo
um vulcão entra em processo de erupção,
 do lado de cá,
as horas se arrastam,
e eu me cego olhando o sol
por minutos eternidades.

19/02/2008 13:32